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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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22
Out15

Poema Infinito (273): o encolher do tempo

João Madureira

 

Caminhamos prosaicamente ao sol que dá mostras de alguma fadiga e dor. Entardecemos ambos poisando suavemente o olhar sobre os montes. Este momento tem as raízes bem desenvolvidas. O vento é uma espécie de alegria. São nítidos os fragmentos da loucura no mundo. Chamamos as águas que continuam a correr isentas de alegria. A letargia do tempo move-se dentro do nosso corpo. A memória é mais pródiga quando guarda o sofrimento. Continuam a chover as folhas sobre os campos. O peso dos metais persiste em calcular a gravidade da terra e os nossos olhos insistem em determinar o peso das lágrimas. O amor dói como se fosse feito de esquinas. Um botão de rosa rola pelo chão devorado pela dor do vento. Cresce no ar o deserto, a culpa, o som quieto dos altares, a voz tribunícia do pastor de almas. Dilatam-se as mãos que afagam o pescoço dos inimigos. A Deus já não lhe basta a perversidade dos humanos. A nossa insegurança fica sem resposta. A noite fica inteira. Nela apagam-se as metáforas e crescem as caixas onde se guardam os desejos, os ecos e as almas brancas do adeus. Os teus olhos devolvem-me o meu cosmos. Nasce uma nova teoria da dor e mais uma estrela solitária. Os gestos das mãos ficam presos nas algemas do silêncio. As palavras inúteis reproduzem-se como erva ruim. As águias voltam a fazer os ninhos nas escarpas mais inclinadas do tempo. Continuamos a escolher o risco de as acariciar. As aves da fortuna continuam abertas e nervosas como sempre. As casas permanecem pesadas como a vida. Atravessamos o tempo lançando olhares sobre as coisas que transmitem alma aos objetos. Os profetas transformaram-se nos monstros das realidades passageiras. Os rebanhos continuam bem amestrados, medrosos e impacientes. Deles nasce a indiferença. A ternura mora longe. Os velhos lambem os selos que colam nas insólitas cartas que enviam, inúteis no seu remorso, longínquas nos seus dizeres, apoquentadas na sua ternura. Com elas pretendem recuperar a memória frágil da verdade, a oscilação amedrontada dos seus filhos, o som libidinoso da boca das suas mulheres, os sonhos povoados pelo desejo. As suas palavras são como campos mansos. Na noite brilham as pedras lembrando feridas exatas, nos buracos os bichos guardam ainda alguns raios de sol. O chão minga como se estivesse possuído por algum tipo de febre evanescente. Os cristos pregados nas suas cruzes continuam a chorar pequenas lágrimas de desilusão. A justiça continua a ser uma designação absurda. A prosa enche-nos a boca, lava-nos os dentes, fica contagiosa como as epidemias. Molhamos os olhos com a clareza das vertigens. O vento pesa sobre as searas de trigo. A noite rouba a sombra às casas. A paciência devora a esperança dos mais novos. Os seus corpos são como sistemas de autoalimentação. Os sorrisos dos jovens são como feridas de espuma, como lâminas que desejam cortar o tempo em finíssimas camadas de expectativa. Trazem dentro de si a luz transformada em densos buracos negros de energia. Os poemas mais brilhantes anoitecem nas suas gargantas. As suas almas sentam-se no chão e retêm as palavras mais urgentes. Nos curtos corredores das casas desfaz-se o seu tempo.

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