Quinta-feira, 29 de Outubro de 2015

Poema Infinito (274): fragmentos de uma eternidade clássica

 

 

A voz surda e tonitruante dos deuses velhos não deixa amadurecer os frutos mais belos dos pomares. Os deuses mais novos colhem margaridas, rosas, flores do açafrão e belas violetas. Os jacintos e os narcisos espalham-se pelos prados e endoidecem as deusas mais frescas que andam a aprender a receber e a dar prazer aos hóspedes importantes. Tanto as flores como as jovens deusas brilham extraordinariamente. Causa até espanto a virgindade violeta das divas. Das raízes mais entranhadas na terra brotam caules e dos caules nascem centenas de cabeças com corolas de flores que entontecem os animais com o seu perfume salgado. O céu sorri lá no alto. A terra é vasta e o mar amplo. As crianças surpreendem-se e estendem as mãos para agarrar nos brinquedos feitos de nuvens e pequenas estrelas. Os caminhos abrem a planície e por ela correm os cavalos imortais. A terra é a mãe de todas as coisas. Os deuses cantam os seus sólidos fundamentos e o voo das aves aumenta a riqueza do olimpo. Os homens possuem belos filhos e belas searas que por vezes oferecem aos deuses. Assim recuperam a honra e obtêm a benevolência das divindades. Tudo possui a sua própria abundância. As mulheres são belas, as leis justas, a juventude é alegre e vigorosa, a cidade é rica. Todos saltam no meio dos prados. A santa raça dos imortais foi novamente glorificada. Continua a repartir os bens, a riqueza, a beleza, a honra, a luz, a água dos rios, o pavor do destino, a morte, o sono, os sonhos, o escárnio, a miséria, a dor, as punições, os nascimentos, o passado, o presente, o futuro, a noite, o dia, a discórdia, o esquecimento, o bem e o mal. E castigam sobretudo os homens que resolutamente cometem perjúrio. O mar levanta-se em ondas. Por causa do temporal a deusa do amor, apesar do brilho do seu ouro, permanece em casa junto da sua querida mãe que lhe ensina a ranger os dentes devagarinho. Então chega o verão. As cigarras pousam nas árvores e espalham os seus cantos ásperos. Os cardos florescem, os insetos batem as asas, as cabras engordam nos prados, o vinho enche a pança dos homens e torna as mulheres lascivas. Elas põem-se de joelhos e fazem coisas esquisitas. Os deuses fecham os olhos. Os deuses possuem o mesmo sexo dos anjos. Mesmo com tanta abundância, alguns homens proclamam a superioridade daqueles que granjeiam a miséria e a distribuem pela casa dos acólitos. A estrada da sabedoria é plana. Os homens porfiam no mérito, os deuses insistem na superioridade do suor. Tudo parece fácil, por isso tudo é ainda mais difícil. Os dias pertencem aos escravos e as noites aos ditosos. Os sábios, sobretudo o grego Hesíodo, ensinam que não se deve urinar ao vento, mas sim junto a um muro ou parede. Que em casa, os homens não se devem apresentar indecorosamente sujos de esperma como se fossem animais de cobrição. Que se deve evitar conceber filhos depois de um enterro. De preferência devem-se fazer no regresso de um festim. Ensinam ainda que antes de se atravessar um rio eterno e de olhar a bela corrente, se deve sempre fazer uma prece e lavar as mãos na água deliciosa e clara.  Que nunca se deve sentar uma criança de doze anos sobre objetos sagrados pois isso torna os homens impotentes. Que um homem nunca se deve lavar na água em que uma mulher tomou banho, pois com tal ato pode vir a sofrer pesado castigo. E, sobretudo, nunca um homem pode zombar do mistério que existe nas flamejantes cerimónias sagradas, pois os deuses irritam-se com isso. E se os deuses se irritarem todos ao mesmo tempo a eternidade pode desaparecer para sempre.


publicado por João Madureira às 07:15
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