Quinta-feira, 12 de Novembro de 2015

Poema Infinito (276): a espera

 

 

A espuma dos dias foge-nos debaixo dos pés. Eleva-se a neblina sobre o leito do rio. Subimos a encosta a cavalo. Os nossos olhos ocultam-nos o mar. As pessoas fogem atrás das nuvens. Os simples mortais revelam desejos imortais. O tempo da caça já passou. Agora cantam-se hinos humedecidos por lágrimas e sangue. As pontas dos meus dedos tocam o teu rosto. Dos teus olhos descem lágrimas. Tremem-te os lábios. Os teus suspiros estão cheios de calor. Cavalgamos durante dias. Envolve-nos uma paz sinistra. As aveleiras e os carvalhos gotejam o tempo. Os nossos olhos avistam finalmente as ilhas. Sentamo-nos à beira mar e esperamos. Esperamos o tempo que for preciso. Reparamos nas árvores, agora mais densas e altas, na sua casca rugosa, no fumo leitoso dos pântanos, na areia cinzenta, na orla árida, no verde da erva, na inclinação disfarçada das terras, nas aves que partem para longe, no lamento perpétuo do mar. Este silêncio é tão antigo como a escuridão ou a luz. Rumores de amor e morte atravessam o solo e instalam-se na alma dos crentes. Os marinheiros baixam-se no vazio da noite e afogam-se antes da cintilação do sol. Sob a luz das estrelas, o povo adormece formando uma amálgama de corpos nus. Os chefes envolvem-se em mantos brancos e afastam-se para a zona mais escura do tempo. Nós refreámos os cavalos. A espera continua. O rei sai da zona densa e empunha a seu gládio de ouro. Um homem com insónia permanente fala da sua antiga casa e de todas as obras que ajudou a construir com a ajuda das mãos. Diz que aprendeu a meditar à luz das estrelas. Fala das longas batalhas do passado. Os seus sonhos são agora fumo. Da sua boca saem apenas dúvidas. Os seus lábios movem-se lentamente, como se rezasse entorpecido pelo fumo acre dos seus sonhos. Envolve-nos uma fadiga maior do que a terra. Continuamos à espera. Flocos de neve penetram em nós como chamas geladas. Uma música suave envolve a nossa tristeza. Invade-nos a memória da dor e do sofrimento de séculos. As reminiscências do sofrimento são lançadas ao mar como se fossem pedras. Os cavaleiros da aurora saem vivos das ondas e cavalgam pelos caminhos mais antigos. Nas igrejas tocam os sinos. Tudo o que é sagrado se verga ao poder da glória. As almas mais desesperadas riem-se de desprezo. Os pobres esperam resignados a sua morte e são abençoados pelo homem do báculo. Aos mais jovens brilham-lhes os olhos. Os mais velhos erguem a cabeça e gritam cantos de raiva. Os seus sonhos são como ilhas. As suas lágrimas são maiores do que bagos de uva. Os seus cabelos parecem nuvens brancas e dispersas. Entoando cânticos de guerra, festejam os antepassados. Os mais novos, com os rostos secos como restolho, gritam que os deuses estão mortos há muito. Depois montam os seus cavalos, agitam no ar as suas espadas e cavalgam para oeste. Os velhos lastimam tudo o que é novo: a esperança e o vigor da juventude. Todos os sonhos são mortais. O homem do báculo ergue os olhos ao céu e começa a soluçar. A sua tristeza não consegue morrer. As palavras ficam ainda mais amargas. Os nossos rostos empalidecem, os nossos olhos brilham, os nossos lábios entreabrem-se, os nossos braços acenam. As sementes de fogo que deram origem ao tempo crepitam e brilham na enorme fogueira que arde no meio do campo. Também elas hão de definhar e morrer, por mais que espreitem e brilhem, por mais que cintilem. Chegou a hora de irmos embora. Já sopram os grandes ventos e as estrelas dispersam-se pelo céu. As velhas recordações dizem-nos que nos havemos de voltar a perder como quando éramos crianças. 


publicado por João Madureira às 07:15
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