Quinta-feira, 19 de Novembro de 2015

Poema Infinito (277): caligrafias

 

 

Fui invadido pela consciência infinita dos elementos. Eu que acredito na imortal satisfação de tudo o que é mortal e finito. Todas as emoções são transitórias e todos os olhares são fragmentados. Adormeço à procura da clareza da poesia. Todos os sentidos são percursos que tentam vencer a inércia. As palavras sucedem-se umas às outras sem que nada se altere, nem a lógica, nem a vida, nem o seu sentido. São agora evidentes os sintomas da dissolução. Tudo é irreversível. Sobretudo a alegria, na sua composição mais espessa. E também a ilusão, na sua espessura de gelo fino que queima o imediatismo dos gestos, o desenho limpo da tua boca, a compreensão do universo, ou o fim catastrófico do amor. Fragmentos de um renovado apocalipse estabelecem entre si as frágeis ligações que irão criar um novo mundo. Os sentimentos dividem-se e transformam-se em gotas de água. A chuva cai em círculos. O tempo sofre os efeitos daquilo que provoca, a dormência efetiva dos corpos. O tempo reparte sabiamente o desejo de ver a probabilidade cultivada da angústia, a aventura dos golpes da casualidade. As palavras agarram-se a nós como lapas e ascendem à memória, fazendo-nos avistar as grandes montanhas do interior, as formas variáveis do clima, os sulcos dos arados no renovo, a própria cor dos sentimentos, a circulação da luz nos nossos olhos, o irregular esboço do desejo. Dentro das casas sente-se a deslocação equilibrada da loucura das mães, o barulho das vozes dos filhos, a ânsia permanente dos contadores de história e dos escrevinhadores de poemas. Lá fora corre o rio como um poema cansado. A noite sobrepõe-se ao sono. O vento bate nas janelas. Ouvimos perfeitamente o bater e asas de uma borboleta no outro lado do mundo. Preparamo-nos para o dia seguinte. A ciência dos velhos manuais tornou-se inútil. O seu infinito já não está ao nosso alcance. Sentimos o afastamento da chuva. Escutamos os gritos da noite. Estudamos o pormenor da loucura que deu origem à construção das pirâmides. O hábito das divindades é quase eterno. Navegam nos nossos lábios os murmúrios do regresso. Todas as hierarquias são construídas com idiomas outonais, nelas pousam as aves risíveis das metáforas. O lirismo esvai-se em símbolos. A loucura possui uma caligrafia muito própria. A claridade contém o seu próprio desenho. Imaginamos o movimento natural dos sonhos, a intensidade esbatida da luz, a violenta solidão dos esquecidos, a tristeza furiosa dos desígnios, a realidade do movimento das sombras. Os barcos aproximam-se da praia. Os pescadores fartaram-se de apanhar palavras. Mesmo as aves ficaram perplexas. Dizem que desta vez Cristo as vai multiplicar e dá-las à multidão que o segue. A realidade do mundo e da condição humana continua a ser um enigma. Os lugares da infância exigem novo regresso, mas o volume dos corpos já não é o mesmo, nem os reflexos, nem a tradição. Os rostos são atualmente contemporâneos do desgosto. Já ninguém liberta as cores da tirania das superfícies mais sólidas. As influências mudam a sensibilidade. Temos a consciência repleta de objetos desnecessários. As imagens estão repletas da energia das convenções. Os poemas afirmam a negação. Os criadores de almas vegetam de país em país. Persisto na perseguição do processo contínuo da inspiração. Em vão. O elogio da arte é um dogma surdo.


publicado por João Madureira às 07:15
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