Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2015

Poema Infinito (280): anunciação, salvação e novamente pecado

 

 

Sinto o amor do lado contrário depois de olhar o teu corpo deitado sobre os impulsos que me levam a beijá-lo com a força sincera e bruta das sugestões. São os gestos parados do tempo o que silencia as bocas. Também eu quero amar o sol e a terra e o calor do céu e a loucura da razão. Não consigo pedir perdão nem ter medo da vergonha. É tempo de fazer penitência, de ser disforme, de ser mau. De ser bom. E de ter paciência. Morrem de frio as pobres flores, perdendo lentamente o nome e ganhando calmamente o gelo. O amor é cada vez mais raro porque precisa de confirmar as palavras com que é apregoado. As mulheres prometidas morrem abandonadas pelo tempo e pelas sombras. Dizem que apenas buscam um pouco de ternura. Mas aparecem sempre tarde. Quando chega a noite sentam-se à lareira e entram continuamente no conto errado. Não vale a pena falar do que já lá vai. Do ar carrancudo dos velhos, da mudança das ideias, da razão, da muitíssima razão do que nos irá acontecer, dos que causam a injustiça, dos que a justificam, dos que a santificam, dos que a veneram, dos que lhe são fiéis. Nós rezamos e cantamos como os outros, com notas discordantes, com arranjos de garganta e pelos mesmos motivos ocultos. Toda a realidade é incómoda. São as pedras que definem as montanhas. É a pena o que conserva o penitente, a que lhe desenha o rosto, a que planeia o significado transcendente do santo sudário. Verónica foi certo dia mãe de um filho incerto. Pariu-o a sete de janeiro e ninguém se opôs. Ninguém, como se isso fosse um feito glorioso. Apenas o anjo da guarda disse que o poderia ter concluído com melhores modos. Depois deixaram-na envolta no seu próprio silêncio e nos seus instintos menores. Os que assistiram, despediram-se delicadamente, sem alegria, sem tristeza. Todos rezaram imbuídos da mais sagrada das ignorâncias. O mundo deixou então de ser mundo e passou a ser outra coisa. Quando se perde a inocência, começa outra forma de vida. Já não se treme quando se mexe e analisa o sexo. Depois chega a ânsia lá de longe. E a lógica. E o canto das sereias. E a sagrada teologia que nos ensina com que linhas Deus cose o nossa vida. Os poetas são sempre os primeiros a cair na hipérbole da anunciação. Os poetas veneram a lua e adormecem. Quando sonham juram lutar pela sua salvação. E escrevem que choram, e fingem mesmo quando fingem que não fingem que choram. Todos os homens possuem uma mesma raiz. Por isso se carregam de pecados e humedecem as mãos com que mataram Caim. E lavam-nas imitando a ilusão de Pilatos. São netos de Moisés, por isso galgam os montes e acordam sempre no fim dos sonhos. Comem incessantemente a metade de cada milagre. E distribuem o pão. E devoram a tristeza por necessidade. Cumprem as ordens. E aprendem a engolir o orgulho. São descendentes de Job. E da sua pobreza. Chamam a verdade aos gritos, mas em vão, como em vão invocam o nome de Deus. E abrem a boca para mostrarem o abismo que nela encerram. O velho Deus açoitou-os muitas vezes. Quase sempre injustamente. Pretendia extirpar-lhes o pecado original pela raiz. Não conseguiu. Então amassou o barro e gerou outro homem e desse homem gerou uma mulher. E depois a mulher pariu muitos filhos. Filhos que tiveram desejos e sonhos e que passaram a desejar ir para o céu. Agora no céu mora um Deus que os enche de amor passivo. É assim o jardim celeste: um fragmento de culpa e outro de ingenuidade. Louvado seja o Senhor.


publicado por João Madureira às 07:15
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