Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2015

Poema Infinito (281): a impossibilidade do destino

 

 

Os comboios cabem dentro de todos os sonhos do mundo. O tempo dos nossos já passou há muito. A saudade é agora outra. O mistério reside atualmente na impossibilidade do destino conduzir as carroças que antigamente cruzavam os caminhos até terras desconhecidas, onde a realidade desaparecia por debaixo das pedras, onde a humidade se infiltrava nos muros e o musgo nascia vencido pelo verde dos lameiros. A sensação que permanece é a da permanência de um sonho, da lealdade das árvores, do propósito das janelas, da realidade interior de todas as coisas. A história não nos marcou. O que nos determinou foram as estórias, o momento das conquistas futuras, a certeza da luz das claraboias, as horas passadas nas mansardas, as aspirações mais altas, as incertezas mais lúcidas, a claridade azul do verão, os sons ouvidos pela gente, a filosofia dos segredos, as paredes sem portas, as cantigas infinitas sopradas pelo vento, a certeza do sol, a incerteza da chuva, a terra inteira, a via láctea, tudo aquilo que é indefinido, a transcendência do assombro. E a amargura. Sobretudo a amargura rápida da caligrafia. E também a rapidez dos versos recitados. Tudo isso nos marcou com o seu selo de fogo. Por isso nos lembramos das deusas gregas, das princesas e dos trovadores, das marquesas longínquas, das estátuas vivas e dos célebres tempos dos nossos avós. Agora as ruas são de uma nitidez absoluta. E também as lojas e os passeios e os carros que passam. Tudo isto nos pesa nos olhos. Envelhecemos a olhar para os espelhos, a criar outra realidade, a tentar desmentir o tempo, a retirar dos versos a inutilidade da sua essência musical. A saudade que sentimos não é passado nem chega a ser futuro. Temos que aproveitar o tempo, as suas linhas, os seus bocados mais preciosos, os pensamentos com que construímos o dominó da vida. A história reflete-se nas suas próprias gravuras, na sua paciência, na sua consciência fatídica. Nós conservamos a suave elegância do existir. As memórias são como brisas, como folhas de árvores involuntárias titiladas pelo zéfiro, como poeira sideral. No centro delas ainda continua a rodopiar o pião ao ritmo do nosso sossego. Um sol vago pavoneia-se pelas casas paradas dando mais ritmo ao movimento das pessoas que andam. A demência humana é sempre maior do que os espaços onde ocorre. A intenção de conquistar o mundo devia ser sempre um projeto para depois de amanhã. Apesar de seguirmos sempre pela mesma estrada, a realidade leva-nos para outro sonho. Viajamos acompanhados pela simetria dos deveres, pelas suas consequências, pelo sacrifício da chegada. O devir é para os loucos do passado, para os homens do momento, para os que sonham com a fervura densa da glória. A Humanidade já aprendeu a viver com as suas amarguras, com os versos escritos pelos outros. Os velhos utensílios da lavoura apodrecem onde foram arrumados pela última vez. Decompõem-se junto aos anjos da redenção. As árvores mais antigas recolhem toda a angústia do dia. Inquieto-me com a ideia dos frutos que darão no verão. Sinto o boi Ápis a ruminar na corte. As parábolas bíblicas deixaram de me entusiasmar. Já me esqueci do seu sentido. Está na hora de arrumar a mala. A monotonia mata-me. Triste condição esta de ser poeta menor, de ter de dizer adeus às fadas, de engolir o tempo junto com o óleo de fígado de bacalhau. Agora acordo sem sonhos, embrulhado em metafísica e seriamente enjoado com a poesia de Álvaro de Campos. Já não sou eu mesmo, tomei o elixir dos eclipses. 


publicado por João Madureira às 07:15
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