Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2016

Poema Infinito (284): tríptico rural (intermezzo)

 

 

Um – As vozes puras elevam-se no ar. O camponês prepara o arado e ceceia algumas palavras na direção da mulher. Os filhos, já casados, vão a cavalo até à raia comprar realidades para o jantar. Os braços que pegam na alfaia são robustos. Os pés pisam firmes a terra. O caçador de perdizes caminha em silêncio olhando para os cães. O padre cruza as mãos junto ao altar. O maluco da aldeia é finalmente levado para o asilo porque foi dado como incurável. Os olhos da sua mãe ficam enevoados. De entre a multidão que o vê partir, o melhor bardo dá um passo em frente e entoa uma canção de despedida. Os homens baixam a cabeça enquanto as mulheres rezam baixinho. Um jovem, deitado no palheiro, escuta o chilrear indiferente dos pássaros e não sabe se há de rir ou chorar. A irmã mais nova do louco estende a meada enquanto a sua irmã mais velha enrola a lã num novelo e para de vez em quando para assoar o nariz. A esposa do irmão do louco está feliz porque finalmente recuperou do parto do seu primeiro filho. Na sua máquina de costura cose as calças do marido. Dois – O rapaz que descansava no palheiro vai até ao rio, puxa da sua cana e põe-se a pescar. Ouve-se ao longe o sapateiro a bater nas solas das botas e a assobiar uma modinha brejeira. A carrinha que leva o louco desapareceu numa curva da estrada. A multidão desmobilizou. Na casa do povo, o maestro marca o compasso e a banda ensaia uma nova marcha. Uma criança é batizada e convertida em católica enquanto chora por causa do frio da água benta com que é aspergida e devido ao sabor do sal que lhe enfiam na boca com o dedo mindinho. Um pastor toca a flauta enquanto observa o rebanho. O vendedor de peixe chega de longe com a sua carga e toca a buzina. As mulheres correm na sua direção. Olham umas para as outras. E sorriem. A tristeza de hoje é igual à tristeza de ontem. Os homens mais velhos acendem os seus cigarros sem filtro e põem-se a fumar como se fossem fidalgos abastados. E sorriem. A tristeza de ontem é igual à tristeza de hoje. O latoeiro cobre o galinheiro com uma chapa de zinco. Os pedreiros erguem muros para dividirem mais uma propriedade. As estações vão seguir-se umas às outras. A tristeza de hoje será a tristeza de amanhã. O lavrador vai lavrar, o pastor pastorear, o ceifeiro ceifar. E o inverno cairá sobre as terras e sobre os telhados das casas. O rio gelará. Os homens mais fortes derrubarão as árvores mais altas com que se aquecerão. Os patriarcas sentar-se-ão com os seus filhos, netos e bisnetos e cearão o cordeiro maior do rebanho. As mulheres sorrirão. A tristeza de hoje é igual à tristeza de ontem, que é igual à tristeza de amanhã. Três – A aldeia dorme. Os campos dormem. O sono dos vivos assemelha-se ao sonho dos mortos. Os velhos maridos dormem na cama com as suas velhas mulheres. Os jovens maridos fazem o mesmo. Parecem estátuas deitadas sobre os seus pedestais. A rigidez é idêntica. Os sonhos são semelhantes. Os novos são tão néscios e tão sábios como os velhos. Os novos são tão velhos como os velhos. A sua alegria é feita da mesma tristeza. Os aprendizes aprendem com os mestres. Respiram o mesmo ar do que ficou para trás. Estudam os enigmas e as suas diversas soluções. Estudam o que está próximo e o que fica distante. A erva vai continuar a crescer enquanto houver terra, água e sol. O rapaz do palheiro toca a sua gaita de beiços. Um galo canta. Um cão ladra. Sentada no escano, a mãe do louco chora pela primeira vez.


publicado por João Madureira às 07:15
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