Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2016

Poema Infinito (285): alucinação

 

 

As alucinações dilatam os vultos, as estrelas tornam-se invisíveis, os espíritos invocados não comparecem ao chamamento e os abraços ficam etéreos. O prazer inicia a sua viagem mais patética. As estátuas iluminadas vergam-se sobre os corpos. A névoa anuncia a proximidade da infância. É o tempo das grandes aparições. Nelas penetrará a candura dos malmequeres, a agitação musical dos corpos, o canto das aves, a doçura das pavias, os raios que caem na superfície límpida dos rios, o lento desejo sideral, os aromas profundos do amor, a florescência das invenções. A mesma rua repete-se na sua forma intransponível, dentro do seu céu fechado, na copa densa da igreja, na solidão azul do céu. O vento traz da montanha o frio e a imobilidade das árvores. O isolamento corta a luz das estrelas que nos contemplam. Os apóstatas levantam-se das suas camas, vestem os seus velhos hábitos cinzentos, as suas sandálias de couro escuro e sobem os capuzes com que ascenderão ao coro da igreja para recitar as orações que se tornam inaudíveis aos ouvidos dos crentes. E repetem esse ritual de três em três horas. Os santos dos altares são lavados e as suas vestes de jubileu são guardadas em enormes gavetões. Antes da aurora Deus tomará uma decisão sobre a irreversibilidade dos movimentos. Inicia-se nova metamorfose. No seu rosto refulge tudo aquilo que é oculto. A omnipresença da sua ausência, a íntima mecânica da inteligência humana, as constelações mais inesperadas, o núcleo atómico da planificação celeste e a exatidão do caos. Dentro das muralhas de Sodoma e Gomorra, os pecadores cavam as terras, regam as laranjeiras, suportam corajosamente o calor, observam clarividentes a sua maldição insone. Deus não dorme, disseram-lhes. E eles acreditaram. Daí a sua intranquilidade, os seus gritos mudos. Assusta-os a mortal frieza com que são tratados pelo seu Deus. As noites são gélidas. Gélido é o seu temor. O seu terror. A sua salvação é a própria morte. Sobre os telhados voam os abutres. O ouro dos templos ilumina a glória do Glorioso. Os agnósticos voltaram a domesticar os pássaros, a recolher sementes, e a desenhar imagens no teto e nas paredes das grutas. As suas crenças não lhe anunciam o Deus dos outros. Preferem adorar o voo dos colibris quando agarram as sementes e batem freneticamente as asas, sugerindo que estão imóveis, parados no espaço a beijar as flores. Deus prepara outra metamorfose. Agrega ao tempo a memória do esquecimento, as sinapses, a organização minuciosa do verde. Pensa desta forma criar o universo das coisas sublimes. Quer esquecer a condição assombrosa dos malefícios impronunciáveis do poder absoluto, as espadas afiadas de gume atómico com que se fizeram as guerras mais poderosas e devastadoras, a irreversível dependência do espaço e do tempo, a cadência misteriosa do pêndulo invertido da razão. Não sei por que motivo ainda existem livros, deuses, espelhos, ondas e mar. Nem sei por que razão existe terra. Fui educado na adoração do prodígio dos castanheiros, na veneração do momento esplêndido do nascimento dos animais, na compreensão inaudita do movimento particular que assiste aos amores proibidos, na veneração envolvente do fruto do ventre das mães. Também me insinuaram que os seres humanos foram criados como um projeto de pássaro. Um deles quis mesmo voar. A mão invisível de Deus queimou-lhe as asas, aproximando-o do Sol e dizendo-lhe ao ouvido: não vá o homem além da sua condição. De castigo, criou uma ave que quando morre se transforma em fogo e renasce das próprias cinzas. 


publicado por João Madureira às 07:15
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