Quinta-feira, 10 de Março de 2016

Poema Infinito (293): a flor do desaparecimento

 

 

Imagino a graça mágica de semear versos, de tecer poemas, de adivinhar destinos, de libertar Sansão da sua força e das leis movediças da santidade. Procuro, no meio das colunas em pé, as linhas do teu corpo, o dia, a noite e o tempo mais breve com que se mede a eternidade. Alguém descreve a aparência da verdade e sorri conforme viu sorrir as estátuas sonolentas, fechadas na mudez da sua configuração de pedra. Pelos fios do luar descem duendes vestidos de melodias sombrias e param junto de um homem que se ilumina nas chamas da sua fogueira secreta. Os duendes enviam sinais que se perdem no espaço. Desta forma celebram a sua inutilidade. O poeta voa agora através da escuridão em busca da fonte de luz. O tempo por vezes para. Dentro dos templos a luz transforma-se em granito. Os deuses que erguem as mãos já não servem para nada, nem auxiliam ninguém. As almas ficam silenciosas, como os livros. A um canto, uma rosa desobediente amanhece. Dizem que é apenas um milagre vazio. A beleza é moldada em bronze. A César o que é de César. A salvação é quase eterna. A Deus o que é de Deus. Os judeus continuam a percorrer o destino das tribos perdidas. A explicação do mal de que são vítimas não tem fim. O seu rei faz os milagres com as mãos e com os pés e explica-lhes no fim o que é a verdade dividida. Toda a ilusão é trágica, a noite rouba-lhe sempre a luz. Desde que o primeiro homem desejou a primeira mulher, nasceu a lei da incerteza. Depois Deus lembrou-nos que éramos todos irmãos, mesmo aqueles que não o querem admitir. E matámo-nos uns aos outros. E lavámos as mãos. E o medo. E enfurecemo-nos. Deus disse então que toda a fúria era maldade. Que a castidade era um cinto. E que não mentia. Construiu o mundo como se fosse uma sinfonia. De boas intenções está o inferno cheio. A luz que nos guia tolda-nos a razão. Nasceu então a santidade dentro dos homens. E começaram as ressurreições. Os espíritos cobriram-se com mantos, os corpos foram possuídos por espasmos e clarões. As montanhas tocaram o céu. Os anjos ganharam asas. Os homens conquistaram o pecado. A vida ficou em silêncio, como os bichos. Apagou-se então a candeia da criação. As virgens adormeceram. Os amantes ganharam asas. Os anjos cortaram-nas. Deus colheu a luz da verdade e acendeu as estrelas na noite e incendiou os montes. E fez nascer o sol. E obrigou-nos a cantar hossanas. As dúvidas aumentaram. A realidade teceu os ciprestes no paraíso. Os homens cantaram as virtudes do seu Senhor e aceitaram a demonstração de que eram feitos de barro. Depois nasceu o mar e as ondas. A nossa angústia e as nossas emoções ficaram salgadas. O primeiro poeta morreu abraçando a primeira sombra do primeiro cipreste. Deus fechou-lhe os olhos. Iniciou-se a primeira aventura celeste. Ecce Homo botou corpo e figura. E apendeu a ler, a escrever, a contar e a rezar. E a chorar. Fez da paciência a sua erudição. Deus transformou-se no anfitrião da sua própria ausência. O Criador criou a sua própria ilusão. Criou o tempo, o principal anjo da morte. A criação da Criação é o seu mistério mais sombrio. Nem a beleza de Deus resiste à eternidade. O movimento de tudo é o nada. O chão duro não consegue receber a semente. Os milagres apodrecem, mesmo que sejam amortalhados em véus brancos. O cântico da vida é o eterno cântico da aflição. Louvado seja o Senhor.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Junho 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9

17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Couto Dornelas

. Couto Dornelas

. Couto Dornelas

. Poema Infinito (460): A t...

. Couto Dornelas

. S. Caetano

. 446 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. SF13 - Montalegre

. SF13 - Montalegre

. Poema Infinito (459): O v...

. SF13 - Montalegre

. SF13 - Montalegre

. 445 - Pérolas e Diamantes...

. Em Chaves

. Na aldeia

. Vilarinho Seco

. Poema Infinito (458): Vib...

. Na aldeia

. No horta

. 444 - Pérolas e Diamantes...

. Até já...

. Cantorias - Abobeleira

. No Douro

. Poema Infinito (457): Peq...

. Semana Santa - Barroso

. Na conversa

. 443 - Pérolas e Diamantes...

. Em Torgueda

. Ao portão com um sorriso

. Quaresma

. Poema Infinito (456): O v...

. Cozinha Barrosã

. Pastor

. 442 - Pérolas e Diamantes...

. No túnel

. No miradouro

. Na cozinha

. No forno

. No monte

. 441 - Pérolas e Diamantes...

. Na Abobeleira

. Na aldeia

. No Barroso

. Poema Infinito (455): O â...

. Na aldeia

. No Barroso

. 440 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. Na aldeia

.arquivos

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar