Quinta-feira, 24 de Março de 2016

Poema Infinito (295): trilogia do desaparecimento

 

 

Das margens do tempo regressam as manhãs gloriosas da infância, as suas sombras, os corpos matinais a agitarem-se como lagartixas, a permanência dos olhares, os galopes em cima dos ramos, a frescura da água, as voltas do tempo, a sede das tardes, a família junto ao lume. E regressam também as ruas e as esquinas das casas e os ninhos dos pássaros e os sonhos. E regressam ainda, lá da margem do tempo, os pais e as mães, ainda com os olhos cheios de estrelas e de destino, guardando-nos no meio das brincadeiras, olhando bem lá para longe, onde ainda morava o futuro. Éramos nessa época tão transparentes como o vidro das janelas das casas onde jogávamos às escondidas. Os cães também eram pequenos e ladravam de mansinho para não nos assustarem, nem eles se assustarem. As palavras bem empregues faziam com que fossemos capazes de comer a sopa sem nos engasgarmos. Os nossos olhos conseguiam sintetizar as linhas das montanhas que guardávamos em segredo debaixo das almofadas. E sonhávamos com o canto dos grilos e com o canto dos pássaros. Pensávamos que os animais falavam. Éramos tão inocentes que metíamos os pobres bichos em gaiolas para acolhermos os sons e guardávamos as cascas das nozes para navegarmos rio abaixo. Tocávamos os tambores e atirávamos seixos para caparmos o rio e amassávamos a lama para criarmos um novo homem e uma nova mulher, como nos ensinaram que Deus fez. Guardávamos a floresta e as flores e as giestas e os gnomos e os coelhos. Viajávamos dentro dos jardins e enchíamos as mãos, as bocas e as camisolas com a tinta que retirávamos das pétalas das flores. Durante a noite, escutávamos os ruídos do crescimento e tremíamos de medo. As noites eram enormes. Os nossos olhos eram grandes. O silêncio dormia ao nosso lado. Apanhávamos as amoras nas silvas dos caminhos. E também íamos às uvas, quando era tempo delas. Os cachos possuíam uma gravidade própria. O tempo é incansável. Agora teima em espalhar ausências, em alongar os olhares, em encher de lembranças os velhos caminhos das aldeias e os poucos bairros antigos das cidades. O tempo enche tudo de saudade e trepa pelas paredes, como heras. Os caminhantes começam a perder os caminhos. As recordações são agora devaneios. O lume aceso já não erradia a mesma luz intensa, nem possui o mesmo calor de outrora. As flores são mais descoradas e quase não têm cheiro. As arcas já não escondem tesouros. Já não nos crescem nas mãos carícias selvagens. Agora é tudo tão educado e tão previsível que nos faz chorar. Os homens e as mulheres desejam estar sozinhos. Os sorrisos são de plástico. Não surgem, nem se desvanecem. São contínuos. Algumas palavras continuam a rimar, mas já não fazem sentido. O lume continua aceso, mas apenas nas fotografias. O nosso mundo é uma galeria de imagens tão perfeitas que ninguém acredita nelas. As palavras recortam a realidade. Os poemas ficam em silêncio. A minha infância está resgatada numa bola de cristal, o céu é feito de mil palavras, os beijos furtivos continuam escondidos dentro dos envelopes, o perfume das flores tornou-se enjoativo, as maçãs amadureceram demais, o leite azedou, os espaços abertos começaram a fechar-se e os sonhos ardem dentro de outros sonhos. O amor coze ainda dentro do mesmo pote. O lume vai-se apagando aos poucos. Apagando. Aos poucos. Apagando. O vento lá fora agita os ramos do velho castanheiro. Ouço ainda borbulhar o caldo dentro do pote. Sorrio para a bola de cristal. A eternidade é uma palavra cada vez mais próxima e mais distante. O lume. A luz. A noite.


publicado por João Madureira às 07:15
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