Quinta-feira, 31 de Março de 2016

Poema Infinito (296): por vezes

 

 

Criamos a amizade nas lonjuras íntimas dos campos, onde a terra é destra, o fogo é solitário, o ar é forte e a água é assombrosa. O mundo abraça-nos. Nós abraçamos o mundo. O campo é aberto, a terra firme e os homens comandam os seus cavalos pela tarde fora, atravessando a tristeza. O mundo, por vezes, fica estranho. Aprendi a acender a minha voz no amanhecer, quando regresso do teu corpo com o assombro dos costumes, sonhando exaltações, dissipando a ternura, lembrando-me das cidades antigas, da água doce que encontrei na tua boca, dos teus lábios memoráveis, da solidão da beleza, da variedade das noites, de todas as aproximações à intimidade, da ventura. Da aventura. Das desventuras. Atravessei o mar. Sonhar, por vezes, não é nada fácil. Conheci muitas terras, vi arrabaldes infinitos, saboreei numerosas palavras em múltiplas línguas, passei, e passeie, por ruas feridas de morte, onde o céu se fechava, onde os anjos eram ocasos. Onde a claridade ardia. Os pesadelos eram insistentes e as distâncias abatiam-se sobre nós fazendo doer o horizonte. O mundo, por vezes, fica inútil, diminuído, traiçoeiro, cheio de muros. As tardes transformam-se em espanto. A ideia de imortalidade fica sozinha. Ou, por vezes, acompanhada da sua sombra. As noites ficam retas como avenidas. O tempo destroça as horas, recolhe os nossos passos e devora a extensão da luz das estrelas. O tempo chega sempre adiantado e alonga-se com as distâncias. Ilumina-se com a solidão. Flagela os caminhos. As ruas ressurgem imóveis usurpadas pela devoção. A cidade, por vezes, fica cheia de esquinas. Disseram-me que os meus antepassados vieram das antigas terras do nascente. Agora, os seus descendentes recuperam as casas e a luz que eles trouxeram fixa nos olhares. Agora, os seus descendentes sangram as memórias guardadas como tesouros e cantam salmos ao poente. E rasgam as sombras. E emparedam o destino. E adquiriram o hábito de, por vezes, se sentarem nos pátios observando as tardes de domingo, enquanto esculpem pequenas estátuas de deuses cegos. As crianças ouvem falar em carrosséis e nas aventuras infinitas dos ginetes de lata e no sabor salgado das praias e no caudal infinito que estabelecem as mãos que trabalham. Do barro feito com a água do rio construíram-se as cidades e fundaram-se as pátrias. Dos troncos das árvores fizeram-se os barcos que aproveitavam quase sempre as correntes falsas. As estrelinhas amarelas marcam no céu sempre os sítios mais longínquos. Milhares de homens abalaram pelo mar. Milhares de homens vieram pelo mar. Encontraram-se. Aconteceram então as desgraças. As sereias desvairaram as bússolas. Os homens dormiam alheados das mulheres. As cidades dividiam-se ao meio e ficavam mais expostas à chuva e ao vento. Desde então, os homens passaram a partilhar um passado incerto. O tempo, por vezes, alarga as sombras, inclina o esplendor das manhãs, estende as tardes, anoitece os baldios, apropria-se dos becos sem céu e impede que a felicidade, por vezes, chegue à memória. Há coisas felizes que, por vezes, nos alegram a alma: a lembrança dos jardins das casas, a vida benigna das flores, a existência delicada das cores, a misteriosa lisonja dos afetos, a roda laboriosa do vento, a honra das casas, a vertigem dos campos semeados, as frinchas subtis que a água abre na terra, as cancelas, os carreiros, o sonho das árvores, a luz dispersa no olhar de quem ama e, por vezes, a eterna encruzilhada que nos observa lá do canto do céu.  


publicado por João Madureira às 07:15
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