Quinta-feira, 7 de Abril de 2016

Poema Infinito (297): desintegração

 

 

Encontro na tua fala um susto de promessas, como se fosse um sossego de palavras murmuradas. No teu rosto refulge a indelével respiração da poesia. Por detrás das palavras surgem os sinais visíveis da identificação. Existem no meu corpo indícios claros da tua passagem, algumas impressões digitais, alguns enredos, certos silêncios. Esquecemos por vezes os vários labirintos da identificação. As fotografias diluem os corpos, os lábios consomem a idade. Os rostos imobilizam-se nos limites da memória. A humidade do tempo confunde-se com a cor das flores. Tenho os teus suspiros agarrados ao meu peito. Escrever pode ser um vício feliz. Aprendi a ler nos caminhos a orientação do tempo, a direção dos ventos e a hesitação da água. Toda a obra é construída com paciência e insónia. Algumas vezes cresce junto dela a desolação e a incerteza. Outras ocasiões irrompem do seu íntimo vozes em queda, como se fossem aves de vidro, cobertas de metáforas. A paixão cobre de entorpecimento os textos. É a sua forma de envelhecer. O tempo escoa-se rapidamente. O vento tenta dormir. É o excesso de luz o que provoca as trevas. A melancolia é uma espécie de inércia interior. Levanto-me de manhãzinha, como os pastores. Vou com a chuva. Passo pelo nevoeiro. Regresso com o sol a pôr-se. Dentro de mim, todas as estações estão misturadas. Começo a habituar-me à grande desolação dos dias e ao silêncio transumante das noites. Avança a manhã pelos arquivos da memória. Por vezes, o céu entra-me pela janela. A paisagem que avisto respira uma intensa serenidade. As aves planam lá no alto. Os animais pastam lá ao fundo. Não sinto nem ânsia de partir, nem desassossego em chegar. A adolescência transforma-se definitivamente numa palavra salgada. Os espelhos refletem os enganos de cada um. Os movimentos da mão com que escrevo tornam-se lentos. O esquecimento é agora perfeito. Os computadores anunciam a morte da caligrafia. As salas azuis pressagiam catástrofes. Os corpos espalham-se pelos corredores. As máquinas ganham feições humanas. Os humanos adquirem a forma de máquinas. Os séculos guardados dentro dos livros mais antigos são exprimidos por palavras sintéticas. As nuvens pousam sobre o cume dos montes para serem fotografadas. Ninguém consegue aguentar a sua própria ausência. As noites de pesadelo enchem-se de catedrais, de árvores radioativas, de plantas que devoram o tempo, de aves luminosas que engolem o fogo, de uma espécie de silêncio definitivo. O vício obsessivo das palavras conduz à extinção das almas e consome os corpos. A estrada é agora uma ideia que nunca acaba. Os lugares por onde passa estão desertos. Alguém vagueia em busca do seu destino e descobre que não há destino nenhum. Os deuses do acaso predestinaram-nos ao nascimento e à morte. O tempo continua a apagar-nos sem darmos por isso. Os rostos expiram lentamente. As vozes imitam o eco dos rituais galáticos. O futuro é sempre tão longínquo que não existe. A manhã chega devagar estilhaçada pela luz. As plantas transformam o pó em oiro. Os raios de sol deslocam os objetos sem ninguém lhes tocar. A melancolia apreende tudo. O dia parece interminável quase até ao momento de acabar. A realidade continua com os olhos frios. A terra abre-se. Afinal, o poema é infinito.


publicado por João Madureira às 07:15
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