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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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21
Abr16

Poema Infinito (299): o envelhecimento das palavras

João Madureira

 

 

A tarde, por vezes, destrói-se contra a natureza. O seu coração quotidiano entrega-se à salvação. O vento despede-se dos sons da temperança. As sombras ficam gigantescas. As tuas pálpebras descaem lentamente em busca de um momento de reflexão. Mesmo assim, a íris incendeia-se como se fosse um grito. No bosque crescem os sobressaltos. As nossas vozes são como labirintos. Temos as bocas doridas por pronunciar tantas palavras inúteis. A gratidão dos pobres é tão proveitosa como os relâmpagos. O seu silêncio é mortal. A luz da música é mais cruel do que muitas palavras. Também elas envelhecem, enchem-se de rugas. Ficam estranhas. Pela porta das traseiras entram os meses, uns atrás dos outros, atrapalhando-se. Ocupam os seus lugares nas litografias do salão. No escano repousam as memórias. As ilusões são tão destruidoras como as guerras. A sua sede é oblíqua. A voz do tempo soergue as folhas ainda verdes que implodem no chão. Também eu sonhei navegar. A natureza espalha sobre nós o manto da finitude. Da honra antiga restam apenas alguns destroços. A noite deposita em mim uma nesga ínfima de ternura. Agora meço as distâncias a palmo. Os dias avançam em meu redor. Quanto mais me movo mais estático me sinto. As vozes aceleram o tempo. Os fantasmas habitam de novo as casas. As rãs ouvem os meus passos e saltam para dentro da água. Pergunto à paisagem porque mudou sem me avisar. Demorei muito tempo a identificá-la. Mesmo assim não tenho a certeza de que seja a mesma. O seu espaço interior está mais dilatado. Só o eco da sua voz é idêntico. O vento faz cantar as folhas nos ramos mais altos das árvores mais altas. Junto ao muro, um homem aceita e acarinha a sua solidão. Os seus olhos estão rasos de lágrimas. Não consegue distinguir se chora, se rejubila. Apesar da forma da sua manifestação ser idêntica, a sua memória é completamente distinta. As flores envelhecem como antigamente, apenas os eletrodomésticos o fazem de maneira distinta. O espelho devolve aos corpos a sua noite mais imediata. As horas são mais precisas e mais curtas. Os rostos impregnam-se de pequenas liturgias. Mesmo a velocidade dos deuses é crepuscular. Nasce-nos no corpo um desejo surdo. O voo germina dentro das asas dos pássaros. As crianças envelhecem olhando o mar. O mar aborrece-se com as suas ondas. O velho sentido da oportunidade já não consegue regressar. É bom acordar dentro da névoa e sentir que a luz a devora. Deixamos cair as palavras pensando que podem nascer de novo. Os campos têm sempre razão. Neles, as palavras conquistam a calma e espalham o verde. As paisagens ficam mais ácidas. As mãos obedecem a outra lógica. A ternura sobe devagar sobre os corpos. Os gestos ficam mais inteiros, as mãos mais aflitas, as flores mais soturnas, os olhares mais lisos. O teu olhar salta por cima dos muros do tempo. As horas ficam penduradas nas cordas como roupa a secar. As memórias invocam outras memórias, a saudade fica mais inteira, os sonhos emouquecem dentro de nós. Os sustos estão fechados à chave dentro das gavetas. O silêncio nos quartos ficou mais agressivo. A linguagem somática é quase minimal. Os corpos transformam-se em portas, as bocas em livros, a alegria em fadiga. As palavras já não dançam, converteram-se em pequenas ilhas iluminadas pela paciência.

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