Quinta-feira, 26 de Maio de 2016

Poema Infinito (304): palavras e contextos

 

 

Faço as perguntas que me levam ao silêncio. Esculpo folhas com o olhar, burilo os ramos, enquadro os canteiros e acaricio as cantarias lavradas pelos meus antepassados. Basta tocar nas pedras para elas se abrirem ao tempo, para adquirirem a forma rosácea da eternidade. Os gestos do espírito são matéria pura. Quando as mãos se materializam no sonho alcançam a arte maior. Talham a neve, decantam o frio, lavram no amor a imperfeição que o torna atraente, fazem brilhar a delicadeza extenuante dos afetos. As palavras mais frágeis caem-nos nas mãos como pássaros de inverno. Essas palavras atraem um pouco mais de matéria, ganham peso e tombam tentando amparar-se sobre as asas. A morte insufla-lhes a consistência inútil da queda. O seu triunfo é o seu sofrimento. As palavras ciciam segredos umas às outras, falam da sua condição de sementes, da sua ciência estelar, do aumento da sua massa e da perda do seu peso estrutural. E ali ficam suspensas, irradiando uma espécie de luz continua que ilumina os poetas. As suas vozes poem-se a brilhar, sozinhas, germinando eternamente, amparadas pelos sinais de pontuação. A lei dos corpos vivos é atraírem a morte. Das palavras sai a matéria de que somos feitos. Com a sua verdade erguem-se os castelos de nuvens, iniciam-se revoluções e escrevem-se todos os tratados da incerteza. As palavras mais corajosas já vão lá mais ao longe, fazendo o caminho, observando as palavras paradas que se limitam a observar quem passa com um sorriso safado nos lábios. Nem parado as entendo, quanto mais quando ando de um lado para o outro como um gato desinquieto em busca de uma pássara. As palavras mais sofredoras detêm-se no caminho com a respiração ofegante, ouvindo com prazer o seu coração bater apressadamente como se estivessem a desfalecer depois de uma corrida ou após se terem apaixonado pela paixão de Simão Botelho por Teresa de Albuquerque e de Mariana da Cruz por Simão Botelho e dos três pelo seu amor de perdição. Outras já estão tão cegas como o Camilo nos seus últimos dias, mas não possuem nem metade da sua coragem. Dizem que ainda veem alguma coisa e dão voltas e mais voltas agarradas umas às outras para não se perderem no escuro na noite, dizem elas, apesar de ser dia e de a luz ser tão forte que estraga as fotografias. O seu saber é parado. Nem eu as entendo, nem elas me entendem a mim. As palavras exatas nem sequer começaram a caminhar. O poema, por trás delas, cava um buraco e faz pela vida. Provavelmente aparecerá um pouco lá mais à frente disfarçado de toupeira. As palavras exatas gostam de separar o som, o tom e a magia. Com elas, tudo parece perfeito, mas tudo está errado. Outras palavras amam os ritos, recebem uma espécie de linguagem e transformam-na noutra sem que ninguém se aperceba. São as que repousam na boca dos logocratas e dormem quentinhas nos seus cérebros eruditos junto com os anjos e os deuses. E ainda há outras que lustram os elementos, acendem e apagam os corações dentro do peito, fazem borbulhar o tempo, incomodam os ditadores, os parvos e os fundamentalistas e gostam de ser murmuradas. Por vezes afloram de forma única e espontânea e deixam-se apanhar disfarçadas de borboletas. Há quem as semeie nos campos e depois as lavre com paciência de camponês. Mas as minhas preferidas são ao que parece pobres mas quando são tocadas com sabedoria transformam-se em brasa, mexem-se ao ritmo louco das marés, convertem-se em torrente e fazem incisões profundas em quem as ama e em quem é amado por elas. Quem me olhar com um pouco de atenção poderá observar vestígios dessas palavras espalhados por todo o meu corpo.


publicado por João Madureira às 07:15
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