Quinta-feira, 2 de Junho de 2016

Poema Infinito (305): a inocência e o medo

 

 

Do mar, viu o pescador tirar as redes repletas de estrelas. Dentro do peito, ardem-lhe os astros que não consegue contar. Os seus dedos são agora uma abstração. Com eles desenha anémonas e tesouros místicos. Com eles benze os peixes e as algas. Com eles constrói os muros do jardim. Com eles escova o chapéu e limpa a sua infância do pó que teima em cobri-la. Com eles rega a última árvore que sobrevive no quintal. Dizem que já lhe falta o juízo. As borboletas absorvem as flores que rega todos os dias. Ainda sabe dar conselhos. Também gosta de os pedir. Sabe ainda comprar e vender, semear e medir o chícharro e a batata, o centeio e o vinho. Sabe cantar a paz e a paciência e toda a saudade que mora dentro de si. Sorri como se fosse o filho pródigo. Talvez o último. Provavelmente o primeiro. Já serviu de anjo da guarda, orientou meninos desviados, ganhou e perdeu asas. Teve sempre muitas dificuldades em aprender as orações. Preservou sempre a inocência estendendo no ar a sua espada de seda carmesim. Agora entretém-se em ver o sol revestir a oliveira de luz, a observar as videiras a medrar, a regar os jasmins e a salsa, a escutar as vibrações da enxada na terra que o cavador utiliza com golpes duros e certeiros. E lembra-se dos campos cobertos de geada, da neve ladroa, das chuvas adiadas, dos hortos desassossegados, do cheiro das madrugadas, dos jornaleiros cortando o pão meeiro, da mó a desandar no moinho, das rolas a gemer nos pinheiros, das nuvens a correr no céu e da morte a grelar nos montes. Umas vezes sente-se Abel, outras toma parte por Caim. Atrapalha-se com o excesso das flores, com o incenso das missas, com os anjos que cheiram a maio, com os passos na rua, com os fechos das portas, com os cordeiros que comem as rosas mais leves, com a luz da lua nos charcos, com o tempo a gotejar. E espera, pungentemente. Por vezes diz que vê Deus no escuro a desenhar a verdade com a mão esquerda. Mistura o sabor das batatas e do pão com o das palavras mais suculentas e ligeiramente gordurosas. Atira os remorsos às brasas e deixa-os crestar. Deixa a alegria grelar como se fosse um vegetal e sorri para dentro. Deixa os gestos mais nobres caírem na terra molhada. Aí amadurece a sua alma. As espigas começam a balouçar no campo. Aí sentiu a presença divina do desejo a subir-lhe pela haste central. Foi-se a inocência, cresceu-lhe o medo. Surpreendeu-se quando se picou nas urtigas pela primeira vez e com as estrelas acesas na noite. A chuva cai sobre as telhas vãs do antigo telhado. O seu corpo de velho enrola-se nas mantas. Sente que lhe podaram as mãos. Os restos da esperança estão amontoados com as folhas junto ao muro, a poente. As ervas ficam luminosas. As pedras gotejam. O cavalo molhado agita a crina e relincha. Dorme-lhe a alma aos pés. A sua vida está tão inerte como a cinza do borralho da lareira. Os seus mortos falam-lhe cada vez menos. Pai e mãe são palavras quase apagadas. As chagas das mãos já não lhe doem. O tempo bate-lhe à porta, levemente. As horas morrem-lhe sem chegarem ao fim. Está tudo tão quieto que até o sangue se lhe arredonda no coração. A sua sombra pesca em vão no mar. A neve cai dentro do presépio que transporta dentro da sua cabeça. Algumas das ovelhas parem. A vaca parece perdida. O burro começa a zurrar. Os sinos tocam. Os pastores fogem de um lado para o outro. Os anjos comprados voam dali para fora. A mãe do menino chora, o pai refila. Os reis magos nunca mais chegam. A estrela cadente levou-os para outro lado. A vaca e o burro começam a mastigar o feno com impaciência. Uma alma atormentada pega fogo às palhas. O menino dorme profundamente.


publicado por João Madureira às 07:15
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