Quinta-feira, 16 de Junho de 2016

Poema Infinito (307): o sossego titilante da ilusão

 

 

Os grandes montes ao sol transpiram sossego. Alguns bichos têm ainda dentro de si o frio da noite. Os homens, entretanto, sonham. Ou fazem que sonham. Os sonhos fazem sempre de conta. Uma chuva lenta desce pelos nossos olhos. Outros olhos nos observam. Por vezes temos a sensação de que o universo é absolutamente oco. O tédio encharca-nos. A memória abandona-nos. A alma esfria-se. O destino é uma interseção de tudo. Só o tempo é sossego. Só o tempo nos desassossega. As consequências da vida misturam o corpo e a alma. Chega primeiro o som da chuva do que a própria chuva. Já nada nos surpreende. Todos os sonhos do mundo são um só. No entanto, o mistério das ruas é distinto. Os pensamentos são impossivelmente reais. O velho conduz a carroça pela estrada do tempo. Esse tempo que é nada e tudo ao mesmo tempo. O comboio parte antes de chegar. As casas velhas das ruas mais estreitas inclinam-se umas para as outras, para se ampararem. Assim podem dividir as sombras e filtrar melhor a luz do sol. Nós somos as ruínas das conquistas futuras, a certeza dos loucos, o propósito mineral das árvores, as aspirações mais nobres e mais lúcidas de tudo aquilo que é irrealizável, a humanidade divina de Cristo, a hipotética razão da filosofia de Kant, uma porta que não tem parede, uma parede que não possui porta, a voz inaudível de Deus, todas as cores da natureza que cabem dentro da cabeça de um cego. Nós conquistamos o mundo mesmo antes de nos levantarmos da cama. Todos transportamos dentro de nós a gloriosa honra de sermos aquilo que nunca seremos. Ensinaram-nos a desprezar as lágrimas, a disfarçar a dor, a iludir a verdade, a admirar os gestos largos sem nada dentro, a inspirar e a expirar de forma moderna, a invocar os espíritos da vulgaridade. Vistas das janelas, as ruas ganham sempre outra nitidez. Vejo no espelho a forma do meu envelhecimento. A decadência é uma máscara. Só pode ser. A utilidade deve ser a coisa mais inútil do mundo. Daí este meu cansaço antecipado, este futuro sem passado, este presente que é sempre um instante mal aproveitado. Quem se fez à história nunca pensou que o máximo que podia alcançar era ser uma imagem desenhada numa parede de barro. As figuras certas contam sempre a história errada. A haver alguma elegância na vida, ela está escondida na persistência dos persistentes, no verbalismo triste dos poetas, no ritmo sossegado das manhãs, nas brisas que titilam as folhas das árvores, nos cinco minutos anteriores ao ato serenamente desesperado de escrever um poema e nos cinco minutos logo após o seu término, nas curvas involuntárias das estradas, no rápido rodopiar de um pião, no estremecimento da atividade da alma verdadeira que se esconde sempre dentro da alma falsa. A rua encheu-se agora de um sol vago. As casas parecem ainda mais paradas por causa da gente que anda cada vez mais depressa. Os seus sorrisos alegres escondem uma tristeza superior, procuram a razão que nunca irão encontrar. A loucura é sempre maior do que os espaços onde habita. O mundo é como o circo da nossa infância. O seu risco é calculado. A vida é idêntica à saudade que temos dele. É este o momento de chegar o nevoeiro, o seu sabor é imperfeito. Os fantasmas ocultos interrogam a sua angústia. Já não sei se sou eu que te sonho, se és tu que me sonhas. A ilusão é a mesma. Andei léguas a deambular. Sonhei com o poema. Sonhei com a sua infinidade. De quem é, afinal, o olhar para quem eu olho?


publicado por João Madureira às 07:15
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