Quinta-feira, 23 de Junho de 2016

Poema Infinito (308): finitude

 

 

Sopra o vento contra os corpos de uma forma muito abstrata. O fogo alteou. Esta é a primeira fogueira do dia. Esta é a primeira ideia da manhã. O mar levanta-se ainda mais verde. Uma ideia é como uma promessa. Possui o mesmo desígnio de redenção. O canário canta na gaiola. Pobre coitado. É loiro e débil. Ele trina. Eu colho os remorsos da sua falta de liberdade. Os sons do violino aveludam a minha consciência. Deus vibra dentro do nada. O tempo é a sua gaiola dourada. Deus também deve ser loiro. Nós somos os seus filhos débeis. Também aprendemos a cantar. Deus é um bom professor. O fogo expande-se como se fosse harmonioso. Os velhos soldados vestem a sua farda e deixam-se morrer de pé, encostados às memórias da sua glória inútil. Os seus olhos já não veem, são como espelhos paralelos que devolvem as imagens. Cantam sozinhos. Leem e deliram. São tão inúteis como poetas declamando ao vento. Com as mãos que mataram agora querem apenas rasgar esse erro. Também eles amaram, antes de matar, mulheres vestidas de branco e de seios fortificados. Sentiam-se anjos bravos fazendo perguntas inocentes às esfinges. Eles eram arrogantes e as esfinges limitavam-se a ostentar a sua plumagem hiperbólica. As suas espadas eram nítidas como estrelas. O tempo gastou-lhes a voz como se esse fosse o seu alimento. Os seus sentimentos continuam a ser como ilhas. Agora sentem-se de novo crianças talhando com as suas navalhas animais domésticos. Não esculpem aves porque, mal adquirem forma, fogem-lhes das mãos em voos rápidos e nervosos. O tempo moldou-lhes a figura como se fossem bonecos de barro dentro de um forno. Todos os dias, as tardes caem sobre si como se fossem armaduras antigas. A sua alegria é uma nova forma de tristeza. Possui o mesmo peso relativo. Caminham em chão firme. Aceitam a terra que pisam porque sabem que esse é o seu derradeiro cobertor. Arrependem-se dos gatos que afogaram no rio, dos beijos que não deram, dos coitos sucessivamente interrompidos. Quando se enganavam, nasciam os filhos equivocados. Eles sabem que a neve faz arder as mãos com o seu frio. Certas memórias doem-lhes como alguns versos doem aos poetas. As manhãs pesam-lhes, as tardes alargam-se, a noite morde-lhes a consciência com o seu espigão. O inverno vive embuçado dentro do seu corpo. Engolem as injúrias como se fossem poetas riscando os seus versos mais atrevidos. Resistem à tristeza enquanto secam por dentro. Aprenderam a resignação como a ensinaram aos burros que montavam. Foram soldados virtuosos, filhos pródigos e monges redentores. Iludiram e deixaram-se iludir. Agora sentam-se à lareira e acendem os cigarros sem filtro com guiços de ponta chamejante. São frutos secos, sementes estéreis, pêndulos que já não oscilam, raízes cortadas. Quando a tarde está soalheira, levam a sua sombra a beber à fonte como antigamente levavam o gado quando regressavam do monte. Até lhe assobiam, para a ajudar a beber, como se fosse um cavalo. A sua sombra é a sua alma. A sua imagem boia na água estagnada. Nas manhãs nevoentas enchem-se de coragem e acariciam as mágoas. Ouvem o caruncho a comer as tábuas do soalho. É assim há anos e anos. Agora prestam-lhe uma atenção redobrada. O sol já não lhes apetece. Até o lume perdeu o sabor. Os olhos já não comem, apenas abraçam o canário e a sua debilidade aprisionada.


publicado por João Madureira às 07:15
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