Quinta-feira, 30 de Junho de 2016

Poema Infinito (309): os gritos e os murmúrios

 

 

 

O meu olhar fica mais lento quando desce sobre as árvores no verão. Repetem-se as tardes e as sombras. Repete-se o terraço e os sorrisos. Repetem-se as memórias, as palavras, as desilusões. Perto de casa tenho os mesmos sonhos como se estivesse longe. As toalhas que cobrem as mesas estão lavadas e perfumadas. Alguns rostos estão colados aos espelhos. Os olhos refletidos repartem imagens da infância e uma espécie de silêncio antigo. Mesmo as histórias mais recentes repetem as tardes que tardam em entardecer. E lá continuam os montes e o desenho irregular das fragas, o vento, as neblinas madrugadoras, a luz opaca refletida pelo zimbório da igreja de onde desapareceram as estrelas, a fúria lenta dos caçadores e a angústia nervosa e rápida do medo dos animais que vão ser caçados. Lembro-me do muro que separava a estrada dos campos de centeio, onde por vezes nos sentávamos a ver passar o tempo e a recitar as palavras aprendidas durante a escola. Sentíamo-nos como ilhas a crescer no meio do mar. Muitas palavras estavam diante de nós e não as conseguíamos ver. Os gestos das mãos desenhavam as curvas do destino. O amor nunca é bem aquilo que cada um sonha. As árvores também crescem na tentativa desesperada de ganharem a altura do céu. As casas continuam de pé a olharem os campos abandonados. Os sonhos que as habitaram são hoje pó e as recordações de verão são uma espécie de retratos invertidos. Os pássaros calam a tristeza e fazem voos tristes para sul. A nossa memória é um labirinto constituído por pequenas feridas. O cheiro das ervas aromáticas ainda é o mesmo. Continuo a confundi-los. Quando chega a hora de as estrelas descansarem nos telhados, e se me começam os olhos a fechar, ladram os cães lá ao longe acordando a noite e espalhando-me o sono e os sonhos. Vim eu lá de longe para ver se te encontrava. Ainda mora dentro de mim o teu encanto de criança. Do meu já não me lembro. Os gatos mansos enrolavam-se nas nossas pernas e ronronavam as suas perguntas que não procuravam resposta. Havia tantas horas dentro desses dias. Sentávamo-nos à mesa e desenhávamos o tempo enquanto bebíamos leite fresco que cheirava a leite fresco. Comíamos pão com sabor a lenha e ao calor do forno. Naquele tempo não havia mentiras nem enganos e o tempo era uma linha tonta que se prolongava bem para lá do infinito. Tudo isso guardo cá dentro como se fosse uma outra espécie de verdade. Sinto o tempo a respirar em cima de mim. Quando acordo de manhã, as palavras estão tão desfeitas como a cama. Mora dentro de mim uma espécie de inverno lento e sereno. Os sonhos continuam a guardar os meus medos e os meus anseios. Os sons da melancolia atravessam a rua. A inclinação do sol e das sombras perseguem-nos. Por vezes as palavras pesam como um fardo. As crianças desapareceram, os velhos ficaram indiferentes e as mulheres trancam-se em casa à espera da redenção. A aldeia é agora o lugar da chuva e do abandono onde naufragaram as mãos e os lábios dos que mais a amaram. As ruínas provisórias tornaram-se definitivas. A memória, pobre coitada, apenas consegue guardar a sua biografia de forma incompleta. Os seus mortos por vezes gritam, outras vezes murmuram, a sua indignação. Tanto trabalho para nada. Já ninguém os ouve. A conspiração do tempo é definitiva. Os deuses da negação passam todas as noites os olhos pelas suas casas. Depois adormecem. 


publicado por João Madureira às 07:15
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