Quinta-feira, 1 de Setembro de 2016

Poema Infinito (318): crescimento, redenção e desaparecimento

 

 

Edifico-te a voz, o corpo e o pensamento sílaba a sílaba, como se a primavera entrasse numa árvore pelos ramos e não pela raiz. Depois os pássaros cantarão por breve tempo dentro de ti e irão povoar novas solidões. O teu silêncio é branco e nele deixo impresso o rosto do meu desejo. Cruzamos as esquinas para preencher os espaços enquanto a tarde de domingo consente as frases do abandono. Abrem-se as ruas. Os sítios amados ficam demasiado precisos. O tempo veste-se com as linhas sinuosas do voo dos pássaros. Habitamos a ilha onde Deus guardou o seu silêncio. Os ventos agitam as estações, os rios correm fora das margens. Num pequeno reduto, as pegadas mais primitivas do divino desvanecem-se. A grande humildade dos homens transforma-se na pobre grandeza da humanidade. As palavras mais sinceras correm o risco de se desvanecerem no mar do tempo. Os amigos abandonam o cais e edificam uma nova babel do remorso. Somos todos caminhantes em busca de um lugar de peregrinação. Temos saudades da curva dos dias. Todos os poetas fitam a morte depois de sorrirem. Não acreditam em Deus mas sim na teoria geral da sua presença. Gostam de olhar sem serem olhados. Ensaiam os gestos do dia-a-dia, seguem as marcas que outros deixaram, sorriem quando as manhãs lhes parecem inocentes, complicam a tarde para não repetirem a noite. Por vezes, os sábados parecem não ter fim. Os meus passos caminham em direção à tua ausência. Nos campos, as searas amadurecem, os pombos arrulham, as cerejeiras florescem. A tua linguagem alcançou o idioma das giestas. Todos estes caminhos vão dar à infância. Se repararmos bem ainda conseguimos identificar a marca indelével dos teus pés. Não me lembro da tua partida, mas não consigo esquecer-me da tua ausência. Cada vez há menos lugar para nós na primavera. No paul dos malmequeres, os grilos repetem as noites. O outono já traz no bico o seu novo álibi. O céu ainda é o mesmo da minha infância. As estrelas ainda possuem o mesmo peso, as histórias ainda se escrevem percorrendo as mesmas ruas e os autocarros continuam a transportar a mesma lonjura e o mesmo pedaço de tempo. Defendo-me disso tudo, recolhendo-me no teu olhar. Os mistérios esgotaram os seus melhores enigmas, alguém deixou distraidamente abertas as gavetas que os guardavam. As linhas dividem agora a beleza do teu rosto. O teu olhar é mais exposto. As sombras são mais domésticas e os segredos mais ínfimos. Há sempre novos olhos abertos nas paredes do tempo. O mar dá volta à terra. Sobre a superfície do mar, Deus expande o seu olhar. Por isso a sua água é salgada. Crescemos dentro de casa à medida que a aldeia ia morrendo. Todos os dias se abriam as janelas. Todos os dias se fechavam. A terra invadiu as ruas. A terra invadiu as casas. Os animais agora são uma outra coisa. Tudo aquilo que não nos matou, redimiu-nos. A noite já não nos adormece, desperta-nos. As manhãs varrem as memórias. Os pássaros estão mais profundos. A luz antecede os anjos. As palavras dos anjos mordem o tempo. Deus morde os anjos. Do Livro subsistem as metáforas. As parábolas ficam mais distantes. Os diálogos de Deus estão repletos de silêncios. Os olhos dos filhos procuram as mães. Perto do fim, os gestos são mais decididos na sua inutilidade. Buracos de luz iluminam os evangelhos. Os camponeses já não semeiam o pão das palavras. O caminho da partida é o mesmo do regresso. Enchemo-nos de ausência. Cortaram definitivamente os choupos do meu caminho de infância. A solidão transformou-se numa epígrafe.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | favorito
Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.


.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 14 seguidores

.pesquisar

 

.Abril 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9


21
22
23
24
25
26
27

28
29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. ...

. No Barroso

. Poema Infinito (453): A n...

. No Barroso

. No Barroso

. 438 - Pérolas e Diamantes...

. São Sebastião - Couto Dor...

. Na aldeia

. São Sebastião - Couto Dor...

. Poema Infinito (452): Hes...

. São Sebastião - Couto Dor...

. No Couto de Dornelas

. 437 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. No Barroso

. No Barroso

. Poema Infinito (451): Os ...

. No Barroso

. No Barroso

. 436 - Pérolas e Diamantes...

. Na Feira

. Na aldeia

. Olhares

. Poema Infinito (450): O d...

. Vaca atenciosa

. BB

. 435 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. ST

. ST

. Poema Infinito (449): Inc...

. ST

. Na aldeia

. 434 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Mulheres

. Na aldeia

. Poema Infinito (448): O g...

. Na aldeia

. Na conversa

. 433 - Pérolas e Diamantes...

. No elevador do CCB

. Em Paris

. Em Paris

. Poema Infinito (447): Des...

. Em Paris

. Em Paris

. 432 - Pérolas e Diamantes...

. São Sebastião - Couto Dor...

. ST

.arquivos

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar