Quinta-feira, 15 de Setembro de 2016

Poema Infinito (320): alfabeto aleatório da criação do mundo

 

 

O meu mundo é pequeno, Senhor, mas não te peço desculpa, nem explicações. Tem rios, lameiros, umas quantas árvores, duas ou três casas, pássaros, arbustos e pequenas flores. Tem uma avó, um menino que se fere nos espinhos que brotam das mãos da sua mãe. A avó tem uns olhos exageradamente azuis, quase líquidos. Todos os lugares do meu mundo estão comprometidos com as aves mais pequenas que chilreiam cânticos alucinantes. Um velho pastor toca flauta para entreter as ovelhas e para inverter toda a lógica que há no universo. As coisas que imaginamos são sempre mais bonitas do que as outras. Eu tenho um modo esguio de estar de pé, os meus pensamentos possuem muitas curvas. A minha avó avisou-me de que eu nasci para alcançar o cheiro das árvores, para agregar os ventos, para multiplicar as folhas, para amanhecer devagar, para desenhar as vozes nos dias, para esconder as grutas. Caminho sobre as canções da terra, sobre réstias de azul, sobre os aromas da alfazema. Na água das poças, iniciam-se os girinos. Tudo parece surgir de uma ideia anterior. As tardes parecem mulheres incendiadas. As frases mais bonitas transportam consigo uma doença. Aprendo a limpar os meus receios, a carregar o resto da vida, a admirar tudo aquilo que continua. A minha avó fala-me no idioma das surpresas. Sinto-me um rapaz triangular. As paredes repetem-se em mim. Estico a timidez e o silêncio. A minha avó diz-me que as mentiras têm de ser comprovadas. Por isso guardamos as lágrimas junto aos olhos. Quando me obrigam a escolher uma coisa ou outra, não escolho nenhuma. A independência é uma palavra com posse. Construo o meu mundo alinhando aleatoriamente o alfabeto. Encontrei a minha alma quando a chuva veio puxada pelo vento norte. A cosmologia passou então a fazer sentido. A minha avó é agora quase uma árvore. Os passarinhos pousam nos seus braços e escutam o seu silêncio. Um dia recolheu na arca da cozinha, junto com os talheres, a carne, o café e o chocolate, o coador de manhãs e todos os outros instrumentos com que planeou o princípio do meu mundo. Iniciou então o seu período de árvore. Diz-me que agora já posso começar a prolongar os horizontes, a delimitar os rios, a regular o nascente e a aumentar o poente. No chão aumenta a fome. É lá que estão as raízes que me deram a vida. Agora compreendo melhor a metafísica e desentendo-me com Fernando Pessoa. Entendo melhor os idiotas, a fascinação pelas borboletas, a demarcação dos relentos, as palavras consagradas, as viagens das andorinhas, os autorretratos humildes, a decadência, o caminho infinito da ignorância, a moral e as suas diversas categorias. Sei que as árvores também morrem de dor. O poeta procura arrumar os sonhos na sua zona hermética. Tenta entender a razão pela qual os homens comovem as mulheres, por que motivo as crianças se entristecem. Os galos começam a cantar pela madrugada. Adormeci encostado à árvore. Os meus sonhos estão repletos de perguntas. Penso nas trevas e nas bombas, na surpresa do escuro, nos rostos que parecem brisas, nas ruínas interiores, nas cicatrizes do tempo, nos desejos e nas suas arestas, na impressão de pertencer às coisas mudas, na sensação de ser um peixe emergindo na inércia das águas. Olho para o céu. As estrelas continuam verdes. Olho para o quintal. A árvore necessita de ser regada.


publicado por João Madureira às 07:15
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