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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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22
Set16

Poema Infinito (321): confusões

João Madureira

 

 

Ignoro o que a verdade tem de mentira. Talvez as datas, os nomes e os lugares. Possivelmente as palavras fraudulentas. Por isso a piedade é temerosa. Por isso os outros tentam resgatar o meu último dia. O destino distrai-me porque vem carregado de conversa e viciado em cartas botânicas. Diz-me que nasci na margem boa do rio. Os pavões correm pelo jardim. No mercado da fruta Eva compra uma maçã. A minha voz assume novas batalhas. Os homens fazem versos dentro dos seus próprios sonhos. Ardem então todos os documentos da memória como ardeu a biblioteca de Alexandria. Os vários exércitos entram na sombra da sua própria batalha. Enumero os comandos, as divisões e as bandeiras. Os chefes parlamentares erguem a sua voz para abrir terreno livre à infantaria. Na planície desfila a cavalaria invencível. Os homens sábios congregam num só rosto todos os rostos que conhecem. Inicia-se o saque dos dias. Os visionários apropriam-se da fé dos crentes e disfarçam as suas fraquezas. Os exércitos são agora as suas próprias sombras. Contou-me tudo isto um velho senhor que morreu sonhando com a sua pátria. A sua viagem foi uma metáfora. Passei a possuir a realidade que abarco. A minha casa está virada a sul até ao momento de a madrugada nascer. Revejo a noite e espero pelo dia. A luz de uma vela velou o meu sono. A realidade foi tão minuciosa que fiquei extenuado. Ignoro o que a mentira tem de verdade. Homens vagos correm pelo bairro. Muitos assobiam a sua própria solidão. Andam lentos. Querem conter a sua espera, abrigar a sua gravidade, nivelar os destinos, integrar os pátios na noite, comover-se com a ínfima parte de toda a sabedoria, possuir as chaves dos livros sagrados, conhecer a genealogia dos milagres, tornar a morte inacreditável, reter a distinta realidade de cada flor, de cada pássaro, de cada olhar. Querem conhecer o hábito das estrelas. Pela manhã libertam-se das suas angústias. Querem perder o sentido de perdição. A mortalidade arde-lhes nos pés. As necrópoles disponíveis são feitas de nuvens e vento. As cúpulas dos templos são feitas de madeira. As cruzes são constituídas por peças de xadrez. A nossa pátria está cheia de vazadouros, de mortes incolores, de recintos disciplinados, de lazaretos, de palavras com prazo de validade, de convicções angustiosas, de rosas de mármore, de átrios de socorro, de consanguinidade, de frontarias, de pórticos garbosos, de árvores desbotadas, de pássaros aluados, de caminhos doentios e preguiçosos, de jardins adormecidos, de pensamentos levianos, de relíquias sonolentas, de comentários piedosos, de homens inexplicáveis, de mortos que ofendem os vivos e de vivos que ofendem os mortos. A nossa pátria está inapresentável. A nossa vontade é recusar as manhãs, invocar as frases depostas, predestinar as derrotas e as impossibilidades, reter o opróbrio, opor as vozes ao tempo, dissolver as confirmações, colocar música nas notícias indecifráveis, encontrar o centro de gravitação do amor, distrair os sonhos, sedimentar a eternidade. As nossas declarações são como segredos. O seu juramento é uma inutilidade. Os factos distantes acabam por morrer. A memória é cega. A lealdade obscura dos versos recolhe os primeiros raios de sol. Ignoro o que a verdade tem de verdade.

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