Quinta-feira, 29 de Setembro de 2016

Poema Infinito (322): os fios condutores da memória

 

 

Ouvem-se os assobios do vento percorrendo as pequenas searas. Dos buracos dos lameiros saem grilos psicadélicos. As batatas amontoam-se na nossa imaginação. Colhemos e comemos as amoras das silvas mais agrestes, pois são essas as mais doces. O mundo é o mesmo, apesar de diferente. O mundo é como o mar. Tudo mudou devagar, tão devagar que parece que nada mudou. Agora fingimo-nos meninos. Quando éramos pequenos imaginávamo-nos grandiosos. Também as palavras cresceram dentro de nós. O pai andava em volta da mãe. A mãe andava em volta de nós. Nós éramos como o vento, como o rio, como as giestas, como os tojos e as urzes. A avó enraizava-se na vassoura e contava-nos histórias e adivinhas e iniciava romances intermináveis e misturava as maçãs e as pavias, as bolotas e as castanhas, as nozes e os figos, os paus de marmeleiro e os estadulhos de carvalho, os juncos e os fetos, os pirilampos e as andorinhas, os perus e as galinhas, os coelhos e os chinos, as pontes e os caminhos, as missas e as festas, os sorrisos e os choros e enfiava tudo dentro da arca. E fluía. E refluía, fazendo do tempo um vincelho. Apesar do amor, a memória ficou curta. O menino meteu-se-lhe nos olhos e fê-la chorar lágrimas grossas de padecimento. Ainda recordo a chama dos seus luzeiros azuis. Sentado no escano de castanho, o menino delineava letras no fumo que se elevava da fogueira. Na folha de papel desenhava o sol que alimentava as árvores. Os pássaros cantavam o que tinham de cantar e depois voavam para longe. Regressavam ao serão para dormirem debaixo das telhas. O menino sonhava em lhes desvendar os segredos. Dizem que a memória não tem fundo. O que a memória não possui é memória. O menino montava no banco corrido da cozinha e percorria todas as leiras da aldeia. No bornal levava a merenda e junto ao peito transportava a boneca feita de uma espiga de milho. Era loira a boneca, como as estrelas de cinema que observava nas revistas que a mãe lia. Seguidamente roubava o vento e levava-o para junto das estrelas. Dentro da gaiola, os grilos rabequistas tocavam canções de liberdade e desespero. Quando se desiludia costumava ir para junto do castelo e começava a chorar baixinho, muito baixinho para ninguém ouvir. Nem ele. Nessas alturas, o lobo mau comia os outros contos e punha-se a dormir. Agora na sua terra já só medram as sombras, as cancelas morreram, os cães já não ladram lá ao longe, nas eiras só avista musgo e líquenes, as telhas das casas desfizeram-se em pó. Agora as cerejas são comidas pelos pássaros, já ninguém coze pão no forno da aldeia, nos palheiros crescem as urtigas e amontoam-se as teias de aranha. O tempo perdeu-se dentro da névoa que encobre os outeiros, as casas são como ilhas desertas, as ruas e os caminhos afogaram-se em dolência. Apenas dentro da minha almofada repousam alguns dos segredos mais pequenos. O menino pirata perdeu o olho de vidro e a perna de pau. As montanhas adquiriram a imobilidade do tempo. As noites estão repletas de ruídos. Os jardins já não viajam. As lembranças estão molhadas por causa das lágrimas. O silêncio atordoa. O tempo do regresso ficou morno. A memória escalda. A esperança gelou. Agora todos os poemas são como a neve que cobria os pinheiros. Os beijos são estáticos. Alguém roubou o desejo, o prazer e a sensualidade de dentro dos sonhos. Os fios condutores da memória baralharam-se definitivamente. Sonho adormecer no regaço quente da minha avó.


publicado por João Madureira às 07:15
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