Quinta-feira, 17 de Novembro de 2016

Poema Infinito (329): miopia

 

 

O dia abriu a boca e engoliu o meu pesadelo. Job despediu Deus e Satanás dos seus sonhos. A lamentação podia ser grande, mas o pecado era pequeno. Todos os meus pecados são mínimos. Agora todos os nomes ressoam dentro da minha cabeça. O tempo desfigurou-se um pouco mais. Ouviu-se a palavra dor chamar, mas mesmo antes de ela comparecer, alguém começou a lamentar-se. O amor não tem raízes naturais. A vida arrefece mais um pouco. As perguntas que ele faz são como punhaladas frias. Cinge-se-lhe ao corpo o calor maternal. E é isso que lhe dói. A ausência. A ilusão da felicidade continua a navegar no mar doirado. Qualquer dia naufragará e depois alguém poderá salvar os seus filhos e as ovelhas e os vinte anos e até a velhice lisonjeira dos avós. Babel sofre o seu primeiro terramoto, os gestos dos incrédulos cobrem as flores mais rasteiras, os mochos piam. Tudo se transforma numa elegia de desilusão. Confessa-se o bom e o mau. Alguém elogia as suas próprias virtudes teologais. São sete os pecados mortais. Eu apenas confesso que não consigo ser dono das minhas horas. A ternura deve ser diáfana e mansa. O tempo repete-se do mesmo modo. Caem os anjos do céu como tordos. Deus continua a governar a diáspora como se fosse um homem despido de sentimentos. As rugas perdem-se no meu rosto. Penso que o tempo é falso. Entro no sono cada vez mais cansado. O guerreiro desespera-se com este tempo de paz. Zaratustra ressuscitou da sua quimera morta. O mistério do seu drama é não ter mistério nenhum. A terra faz sentido, as espigas da seara também. Adormeço com a cabeça solta entre as tuas coxas. O teu olhar fica mais tardio. Nos caminhos passam pessoas cheias de noite e de luar. Bebem água da fonte dos sonhos, colhem lírios. Andam de terra em terra à procura do sítio certo para morrerem. O chão fica semeado de estrelas pisadas. Eretos, os montes velam como se lhes conhecessem os sonhos gelados. O seu desespero é cada vez mais íntimo e mais ímpio. As raízes das árvores secam envenenadas pela amargura. Os poemas caem das macieiras por estarem maduros demais. Ninguém os colhe. Possuem um aspeto tão desgraçado que até os animais mais famintos os evitam. Servirão de húmus. Apesar dos beijos que encerram, das ironias que transportam, das promessas que carregaram durante a sua existência. Ninguém aproveitou o cais de onde partiam os navios que os sulcaram, ninguém se deixou beijar com o seu amor, ninguém abraçou o seu corpo esguio de braços abertos pela esperança, ninguém acreditou nas suas promessas, na sua pureza, nas suas utopias, nas ilusões semeadas dentro de si, na sua razão, no seu perdão, nas emoções mais puras, nas tardes que conservavam o calor da lareira no inverno, na possibilidade da poesia ser gloriosa e encerrar dentro de si os anjos da guarda, e o delicado silêncio do amor, e o vinho e o pão da transfiguração e da possibilidade eterna da redenção. Também as serras paradas esperam por movimento. A poeira aguarda ser levantada. A sombra espera ser movida. Guardo dentro de mim ainda um palmo de sonho. Olho para o sol, ou o que resta dele, e penso que para o ano a macieira voltará a florir e a dar frutos. Isto se, entretanto, um bruto qualquer não a deitar abaixo com os duros golpes de um machado aguçado. A bruma vai-se. As fadas dobam os seus enredos de sonho. Reparo que estão nuas. Não, é afinal a minha miopia que cada vez me engana mais.


publicado por João Madureira às 07:15
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