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24
Nov16

Poema Infinito (330): a nova infância das máquinas

João Madureira

 

 

As realidades são agora mistas. Os sonhos estão trocados. As impressões são longínquas. Algures na vida, alguém é embrulhado e substituído. O sol que entrava pela janela abandonou o seu lugar. As crianças já não querem compreender o mundo. Não comem pão com manteiga, não brincam ao berlinde ou ao peão. Jogam nas máquinas que são jardins de terror. A sua infância encosta-se à parede e espera que chova lá fora. As lágrimas saem já mortas dos seus olhos. Os palhaços não riem nem nos fazem rir. Os bobos fazem de mortos. As charadas têm agora o ritmo mecânico dos computadores. Os sorrisos soam como martelos pneumáticos. Os serões da província adquiriram o sabor a óleo de fígado de bacalhau. Os pescadores já não pescam e os lavradores já não lavram e por isso todos deixámos de entender as parábolas cristãs. Os amantes namoram dentro de uma realidade virtual. Os cães e os gatos têm os músculos cansados de tanta obesidade. Foram substituídos por tamagotchis. Os frangos, os porcos e as vitelas nascem já devidamente pontilhados com as formas com que vão ser recortados quando atingirem o peso ideal de ração e água com abrilhantador. O mar adquiriu a ondulação perfeita com que pretende ser fotografado e filmado. Os poetas sentem a saudade parada depois de tanto exercício físico tendo em vista participar nas olimpíadas das feiras e das festas literárias. Os poemas expõem as suas paixões com o coração fora do peito. Deus e o Diabo disfarçam-se um do outro sempre que lhes dá jeito, ou a isso são convidados. As constipações são metafisicas, os antibióticos inúteis, as malas arrumam-se dentro das próprias viagens, a vontade espera por um comboio que já não vem, as ações já não têm consequências e a alma adquiriu uma epiderme carregada de angústia. A liberdade tornou-se num acidente inconsequente e superficial. Os libertários tornaram-se monótonos e repetitivamente dorminhocos. Todos viajam sem sair do lugar. A raiva é um produto que se transporta nas algibeiras. As brisas de verão já não são agradáveis, limitam-se a ser inconsequentes. A lógica das coisas deixou de ter nexo. Só o sossego é exagerado. Os carinhos e os afetos são apenas memória. A tristeza já não é uma coisa séria. A alegria já não é uma coisa intensa. Já não existem pares românticos, nem ciúme, nem amor. Todo o saber se arrumou em bibliotecas que ninguém visita. A vida arruma-se em prateleiras. Nada é definitivo, nem provisório. É tudo assim-assim. Não há ricos nem pobres, nem hinos que se cantem, nem relógios que consigam medir o tempo.  O tempo é a nova ordem da economia. Os novos profetas sentam-se em secretárias e falam para câmaras instaladas em computadores. O destino nasce já cansado dentro dos bebés cansados que foram paridos por mães cansadas e que foram inseminados artificialmente porque até uma ereção de jeito dá muito trabalho a produzir. O desejo transformou-se num objeto. Já não existe silêncio, apenas se escuta o ruído produzido pelo Big-Bang e amplificado por pesados altifalantes. Esta é a nova música clássica inventada no primeiro momento da criação. Nem sequer resta um pouco de energia para fumar um cigarro, beber um copo de vinho ou desejar bom-dia ao nosso vizinho que já ninguém sabe se mora longe ou perto. Tenho sono mas não durmo, tenho fome mas não como, tenho sede mas não bebo, tenho ereções mas não copulo… A madrugada é tão inútil como o anoitecer. A glória é o próprio momento. Já ninguém consegue morrer de amor. Shakespeare tornou-se inútil. E Cervantes ainda mais. D. Quixote e Sancho Pança travaram finalmente um duelo de morte.

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