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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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08
Dez16

Poema Infinito (332): a primeira ternura

João Madureira

 

 

As memórias ficam-me embaciadas como o outono. As aves voam para norte, os gatos fogem da chuva. Os cheiros também provocam dor e expandem-se e chegam a morrer como os nomes. O regresso a casa é como se fosse outra forma de partir. Os dias fizeram-se frios de repente. O tempo mudou. O tempo está sempre a mudar e com ele muda a orientação dos nossos passos. Regresso às velhas leituras. Lá fora pastam as ovelhas embrulhadas na sua própria lã. Os panos de linho ornamentam as mesas. Já passou a hora de tu voltares. Mas eu espero. Eu sou feito de espera. A luz fica incerta dentro do nevoeiro. O verão foi demorado. O tempo magoou-nos. Os retratos que repousam sobre o tampo da mesa já foram novos, bem assim como as histórias fechadas dentro dos livros. Os enredos são eternos, são coisas de crianças. O que mais recordo são perfis, os dedos que sobram depois dos gestos, os sonhos exaustos, as pálpebras dos teus olhos. Até as vozes me sabem a regresso. Os nomes das coisas trepam por mim acima. Trocamos os corpos como se fossem jardins. Tocamos nos sexos como se fossem flores. Toda a porta se abre se a empurrarmos devagar. Os verdadeiros segredos devem guardar-se até ser tarde demais para serem revelados. A luz persiste em glorificar a claraboia, nela continuam a cair as estrelas mais distantes e fugazes. Arrefecem os quartos. Os silêncios escondem-se atrás das pinturas, dentro dos armários, debaixo das camas. O mais envergonhado penetra nos livros e refugia-se no meio das palavras. Aqui já ninguém desafia o calendário. Os nomes são pronunciados rente aos lábios. As sombras permanecem inquietas. As imagens dos sorrisos foram varridas com uma vassoura de giestas ainda em flor. Na minha memória arde o frio da primeira ternura. A neve caía sobre a terra como se fosse espuma. Mordíamos lentamente o pão como se a tarde estivesse ferida. Os animais derivavam em torno do silêncio. A sua impressão era gélida e luminosa. O branco acudia às janelas. A noite ficava rasgada quando chegava a luz da lua. Ao alvorecer regressava o sol para morder a neve. Pensávamos então nos frutos, nos caminhos e aproximávamos as mãos do rosto para sentirmos o seu calor ténue. A luz quente da fogueira afagava a manhã. Doíam-nos por vezes os dedos como se estivessem gastos por tocar os objetos. Ninguém nos protegia dos invernos. As feridas ficavam vagarosas. A pressa fugia dos caminhos. Os sonhos escondiam-se entre os medos e os desejos. Alguém me abraçava devagar na escuridão do meu quarto. Eu ouvia a noite e adormecia esperando pela madrugada. Os lugares mais pequenos são os que ainda permanecem em mim. Traziam-me confiança. Curei-lhe sempre das feridas utilizando o atrevimento das palavras. As profecias por cumprir deixaram os homens indiferentes. O céu cegou-os. A voz clara e mansa dos anjos congelou de repente. As mulheres começaram a abrir os frutos secos em busca do tempo. Os homens comiam-nos junto com o pão duro e a aguardente açucarada. Alguns perderam deus a caminho dos campos ou nos trilhos da guerra. Os amigos partiram, os lugares ficaram vagos, os amantes consumiram o seu amor antes de chegar o fim da tarde. As manhãs encheram-se de raízes. Os murmúrios tomaram conta das noites. Onde existe deus não há intimidade. Tudo mudou de lugar. O inverno abriu-se. A casa encheu-se de natal e de crianças. Tudo ficou menos doloroso. Por vezes apetece-me andar para trás.

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