Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2017

Poema Infinito (340): labirintos

 

 

 

Possuo dentro de mim uma aldeia teórica. E mamífera. Durmo dentro dela nas horas perigosas. Nas várias porções do sono vou aumentando o meu vocabulário. A vida constrói-se quase sempre em volta de uma argumentação absurda. A felicidade é uma espécie de santa traição. A sua memória define-se pela dessincronização alegre do silêncio. A vida habita no seu condomínio fechado com saudades da velha casa do campo. A minha alegria é camponesa, guarda as cores dos montes, rejeita os ódios pacíficos, a perfeição da espera e as vinganças. Desço sempre os degraus um a um. Esse é o meu exercício intelectual mais rigoroso. O pensamento é tão transparente como o ar. Talvez um pouco mais espesso. As crianças procuram nos balões coloridos a ambiguidade da sua origem. Cada dia as formigas trabalham mais, imbuídas da sua utilidade divina. Acreditam em milagres e nas hierarquias. Acreditam no progresso e na sua representação. Os deuses estão cada vez mais preguiçosos. A ociosidade faz-lhes mal. Torna-os inúteis e obesos. Os homens já não possuem destino. Não conseguem chegar a tempo, não conseguem definir o seu ponto de partida, as suas influências, o seu saber. Os seus caminhos são incertos. As suas horas estão repletas de enganos. Deixam as suas próprias armadilhas a descoberto. O seu olhar já não possui coragem, mesmo que disfarçada. Os seus movimentos mais destemidos assemelham-se às fugas. Mergulham no mar mesmo sem saber nadar. Tremem-lhes as mãos, escondem as suas qualidades, perdem, pouco a pouco, o erotismo, afastam a sedução. As suas emoções são traídas pelo método, pela distância das evidências. No entanto, ainda há homens tão destemidos que conseguem chegar sempre a tempo, sabem procurar as horas e perguntar pelo seu caminho, escolhem o próprio destino. A sua felicidade não tem enganos. Sabem acompanhar as decisões dos místicos, evitar os efeitos maléficos do medo, desviar-se das ilusões óticas. Pensam o mundo sem mudar de rosto, através da fisionomia dócil da música sacra. Observam e estudam os processos mecânicos da corrupção. Não existem multidões sinceras. Procuram as alegrias íntimas no meio dos míscaros, associam as partículas interiores da saudade, excitam a beleza com os dedos em júbilo, escrevem manuais de sobrevivência para as vítimas das grandes quedas. Sabem que a melhor alegria é a espiritual. Aprenderam que no céu os deuses patéticos não saltam muros, que os deuses do amor roubam os beijos, que as fronteiras são os limites materiais da traição e que os órgãos que produzem a alegria são os mesmos que originam a tristeza, apesar do seu temperamento opositivo. Sabem ainda que os tribunais humanos não conseguem desenhar linhas retas, que apenas alcançam somar o peso das circunstâncias às decisões unívocas. Os seus relógios apenas medem o tempo qualitativo. Volto a encher a casa de pormenores, a guardar algum espaço para a beleza, a colocar os bons exemplos nos seus postos de vigia. A beleza apenas existe naquilo que é olhado. Continuo a guardar os rebanhos lentos da impaciência. A matéria possui o seu próprio futuro. A memória tem futuro porque os deuses protegem o passado e as suas evidências, apesar de a sua alegria ser eficazmente domesticada. Os deuses são de uma ineficácia extrema. As crenças exigem eternamente uma viagem interior. Os heróis perdem-se sempre no labirinto do seu orgulho.


publicado por João Madureira às 07:15
link do post | favorito
Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.


.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Setembro 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9

19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Na Póvoa de Varzim

. Em Paris

. 460 - Pérolas e Diamantes...

. Póvoa de Varzim

. Póvoa de Varzim

. Bragança

. Poema Infinito (473): Dis...

. Porto

. Paris

. 459 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Farinha de milho

. Fato

. Poema Infinito (472): O a...

. Na aldeia

. Sorrisos

. 458 - Pérolas e Diamantes...

. Em Lisboa

. No elevador

. S. Lourenço

. Poema Infinito (471): O s...

. No Louvre

. No Louvre

. 457 - Pérolas e Diamantes...

. Chaves

. Barroso

. Barroso

. Poema Infinito (470): Do ...

. Barroso

. Loivos

. 456 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. No Barroso

. No Barroso

. Poema Infinito (469): O l...

. No Barroso

. No Barroso

. 455 - Pérolas e Diamantes...

. O cabrito

. No Couto de Dornelas

. ST

. Poema Infinito (468): Voo...

. No Louvre

. O anjinho

. 454 - Pérolas e Diamantes...

. Gente bonita em Chaves

. Luís em Santiago

. No Louvre

. Poema Infinito (467): A a...

. Louvre

.arquivos

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar