Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2017

Poema Infinito (341): a exatidão das folhas de outono

 

 

A noite desce sobre a nossa juventude. Dialogamos com a nossa voz de silêncio. As manhãs molham-nos os corpos. Uma espécie de chuva inútil desce do céu e cai em cima das árvores abertas. As suas folhas apreendem o segredo para atravessarem os rígidos meses de inverno. O sol ilumina o relógio da aldeia. As pessoas importantes passam na rua com as suas ideias latinas elevando os ombros, imitando as árvores, concorrendo com a inutilidade das coisas mais singelas, misturando-se e distinguindo-se na ocupação da capacidade real no adro da igreja. As crianças conformam-se com o espaço que lhes deixam, ocupam o seu interior, enchem as ruas, produzem novos gestos, penduram as palavras que lhes nascem nos lábios nos fios da eletricidade. A chuva serve de pretexto para a exibição dos olhares eternos, para definir a fronteira da infância. Ensinam-se os gestos exatos da submissão, do amor e da morte, a vida exata dos livros, a medida das cidades, a dimensão autêntica da erva de março, o aroma dos vestíbulos, a abertura genuína para entrar nas danças das crianças. Os patos selvagens fazem os seus ninhos junto ao rio. As montanhas definem o infinito da água. Tudo nos lembra o passado, a passagem das estações, o chiar dos carros de bois. E também os dias preenchidos de grandes problemas por resolver. Arredondamos o olhar com o que se passa à nossa volta. A realidade é muito antiga, vai de alfa a ómega exibindo o seu colar de palavras. Os caminhos por percorrer exibem as suas esquinas semeadas de arestas e juncos. O outono varre as palavras que nos caem das mãos. Já não há cuidado que lhes valha. Os anjos mais fortes sustêm as cúpulas do tempo. O templo da anunciação fechou as portas ao público. Nas aldeias ainda há espaço para os domingos, o sol ainda ilumina as casas e a água dos poços. No entanto, os espíritos dos mais velhos já deixaram cair os gládios. Junto ao rio apenas se escuta o silêncio. Jerusalém é nome de cidade, nós vivemos nos arredores de Jericó, numa aldeia com nome de Torre. Isso foi antes da fundação de Roma e depois do dilúvio. Nesse tempo choviam rosas e solidão. Ia jurar que outrora estive aqui. Lembro-me deste portão. Foi neste lugar onde terminou a minha infância. O olhar ainda me cabia dentro do rosto. Com os dedos das mãos cortava a luz. O sol fazia parte do nosso quotidiano. Esquecíamo-nos das palavras nos sítios mais inverosímeis. As vozes juntavam-se aos corpos e dançavam. A alegria pousava nas árvores junto aos pássaros. A nossa vontade definia a orientação dos ventos. Nos dias de chuva, a música sentava-se connosco no escano olhando as labaredas que desenhavam a lareira e a redondez dos potes. A beleza avançava resguardada pela minha esperança. Mesmo antes de te conhecer já sentia saudades tuas. Agora, as tardes de domingo avançam e desaparecem sem que se dê por elas. As mãos já não abrem e acariciam as searas. Os olhares estão embaciados. O tempo adquiriu a reclinação da história, os pássaros voam desamparados em direção ao céu refletido nos vidros das janelas fechadas. As avós limpam o pó das mesas enquanto olham para a televisão. Já não se abrem os lençóis da aurora, as tardes já não exibem o seu brilho rubro. Agora repreende-se o outono e diz-se mal do inverno. Venera-se o rosto inesgotável das primaveras de plástico. Acredito que se pode ver cair as folhas de outono e continuar a viver. Elas ajudam-me a recordar as minhas leituras mais antigas.


publicado por João Madureira às 07:15
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