Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2017

Poema Infinito (342): Fragmentos da criação

 

 

 

Afasto-me das sombras e vou para ao pé de ti. A vida diz a verdade a quem lhe acena. Toda a herança se renova. O futuro nasce do passado, foi aí que alguém o semeou. As lembranças, por vezes, embebedam-se. E por isso estremecem como crianças. Lanço-te um sonho em forma de ponte. Alguém canta de mansinho o hino da esperança repleto de claridade. As formas levantam-se nítidas e anónimas. A verdade aumenta. O tempo dilui-se. No meio do caminho surgem sempre as dúvidas e as angústias. Há pessoas tão incorruptíveis como as pedras. Nascem como os bichos, mas possuem outra grandeza. A realidade senta-se todas as tardes no largo da aldeia. Os cedros acumulam a luz. Alguém faz o seu enxoval pensando na imortalidade do amor. Tece os tecidos com os fios da irrealidade. Apenas as traças são eternas. Deus não merece os homens e as mulheres que criou. Mesmo assim, os bichos lavram o chão e os homens cantam as virtudes divinas. A emoção que evidenciam possui a ânsia salgada do mar. O desejo contém a brevidade das flores desamparadas, a mesma inquietação humana. Por isso, os poetas gostam de abraçar as sombras dos castanheiros, a fantasia das viagens, a seiva que corre no tronco e nos ramos dos versos, a luz inscrita nos lençóis de linho, a rebeldia dos caminhos montanhosos, as raízes do inverno, a biografia dos corpos nus, a erudição e a paciência das mães, a tinta de que são feitos os fantasmas. Apenas os poetas conseguem ser os anfitriões da sua própria ausência. Apreciam ser testemunhas do presente no seu passado, deixar as marcas dos seus passos na neve e definir a ilusão da felicidade à medida que vão andando. Transportam dentro do coração pó de estrelas, os mistérios mais sombrios, imagens do início da criação, fragmentos do tempo que move as guerras, a perplexidade das épocas de pacificação, o brilho da espada branca da verdade e resquícios da beleza que resiste à eternidade. Já não se morre de sede nos caminhos. Neles voltam a crescer os passos e os ulmeiros. Os amieiros começam a nascer junto das novas fontes. As raparigas sorriem como se fossem rosas dos ventos e gritam aqui del rei e deixam-se namorar pelos cavaleiros da távola redonda. Adquirem o instinto desprevenido da sexualidade, dizem não e despem-se. E deitam-se. E deixam-se amar. E erguem os seios. E abrem as pernas. E latejam com o calor do desejo. E deixam que os seus ventres sejam semeados. Depois escutam as raízes a cantar e as linhas de água a correr e as veias do sexo a latejar. Sentem então a eternidade num momento e pensam que a vida é breve. Por fim adormecem e descansam e pensam e sonham com astros e a luz do sol que derrete a geada e a neve. Apercebem-se da alma das serras, da sua leveza e da sua frescura. Sonham que Cristo lhes há de transformar a água em vinho. Sentem-se a amadurecer como os frutos. Os seus corpos são como céus. Depois acordam. As giestas florescem nas encostas, as aves libertam-se de algumas penas, os sonhos descem pelos outeiros, as sombras deixam de ser mágicas. As raparigas, sempre elas, passam então a ser fiéis a quem lhes irá nascer. Enchem-se de imagens de ternura, aprendem a instintiva lição da criação. Olham para o passado e pensam no futuro. Os seus olhos são agora como janelas largas e altas, abertas a tudo o que vem de longe. Os seus rostos adquirem a serenidade das árvores de fruto. Os seus olhos choram, mas sem pranto. Pensam que a felicidade, por vezes, pode criar raízes. Deixam-se então possuir pela ânsia das mães.


publicado por João Madureira às 07:15
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