Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2017

Poema Infinito (343): O alongamento da solidão

 

 

Toca o alarme do silêncio dentro de mim e então abre-se o amanhecer. As palavras são como brinquedos. No fundo do quintal nasce agora outro saber. O tempo voltou a colocar o sol perto do fundo da nossa casa. Agora já só falta inventar um novo rio. O avô voltou a falar: O que é que fizeram aos pardais, parece que voam parados. As pessoas somam-se às distâncias e tanto aparecem como desaparecem. O pai passeia. A mãe faz croché. Um menino travesso vara o corpo do sapo com um pau. Faz de conta que sabe acrescentar uma graça infantil para impressionar as meninas fortes e os meninos medricas. As irmãs infantilizam as formigas fazendo-as perder o carreiro. O meu melhor amigo disse-me que o seu pai morava no fim de um lugar, sem saber bem onde. É filho de uma lacuna de gente. Por isso aperta os bichos, morde as andorinhas e sobe às árvores para apalpar os frutos e tardar o amanhecer. Por vezes aparecia na aldeia um homem com uma carroça que parecia um baú e tirava de lá de dentro caramelos, bolachas, pentes, argolas, brincos, laços para as meninas, espelhos redondos, canivetes, lenços brancos, saias amarelas, espingardas de pau, apitos de barro e muitas coisas para a saúde e para a santidade. As mulheres compravam aquilo que podiam e riam-se muito enquanto levantavam ligeiramente as saias. A minha avó abastecia-se de solidão. Os sentimentos, de tão longínquos, pareciam residir perto. Eu desenhava a esperança com um lápis de lousa. E desenhava também os meninos em planos expansivos e o meu avô a dar amoras. A minha avó dizia que os seus filhos teriam alcançado melhor sorte se tivessem nascido de uma árvore. O meu avô alongava a solidão. Ao fim da tarde, eu olhava para os fundos do quintal por onde a minha mãe costumava aparecer. Quando o dia envelhecia, entrávamos para dentro de casa e púnhamo-nos a comer as batatas, ou os chícharros, com couves e carne de porco cozida. Era nessa altura que os lagartos entravam nas folhas caídas no chão para adormecerem. Na hora de dormir, a minha avó construía brinquedos com as palavras e deixava-os dentro da minha cabeça. Nos dias de festa subíamos ao coreto da aldeia e apregoávamos bondade. Aprendi a ser autodidata das proclamações. Nos dias de neblina, as minhas irmãs perdiam o rasto das formigas e começavam a chorar. A mim pingavam-me gotas frias no coração. A tristeza é uma coisa fácil. Sentia-me crescer como um passarinho. Sentia também a sua insegurança. Aprendi com eles a encolher-me. De manhã, desciam pelos lameiros as brisas e as borboletas exibiam a estultícia dos seus voos atrapalhados. Também aprendi a subir aos telhados para esperar pela lua prateada. A mãe ralhava-me. O avô ralhava-me. O pai ralhava-me. A avó ralhava-me. Eu dizia-lhes que não era motivo para tanto. Muitos dos meus colegas, durante a noite, disfarçavam-se de insetos e desapareciam. Alguns ficavam dentro do mato até de manhã. E luziam como pirilampos. As plantas cresciam junto dos seus corpos. Agora chove toda a noite. O rio engorda, como se fosse um menino comilão. O sol ilumina as águas. O perfume das giestas continua a entontecer-me. Algumas árvores ainda me reconhecem. Olho para elas e encosto-me ao azul da tarde para descansar. O voo dos patos prolonga o meu olhar. Acompanho-os enquanto posso. A família habita agora a minha memória íngreme. Apesar de ainda fabricar brinquedos com palavras, a minha alegria perdeu a voz.


publicado por João Madureira às 07:15
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