Poema Infinito (348): A dupla porta dos sonhos
Cantam os deuses, os homens e as suas mães. As deusas da boa ventura cintilam como estrelas no céu. O meu sono profundo é um mar de tranquilidade. As mães entram nos sonhos e dissipam os seus cuidados, repousam as suas canseiras e fadigas e conduzem os animais alados até à estrela mais brilhante da noite. E dançam. E expulsam os fantasmas. Nasce dentro delas a claridade do céu, os olhares mais vivos, as auroras mais favoráveis. O seu bom augúrio combina as estações e os caminhos que têm a forma de círculos infinitos. A beleza é piedosa e os inimigos são ímpios. O senhor do mundo toca flauta, move as chamas circulares, traz a luz e as cores mais variadas. Os pais vestem-se de tempo e fecundam o universo. Estabelecem a ordem, respeitam os juramentos, honram os heróis mais ilustres, prescrevem a lei e incendeiam as divindades subterrâneas. Os pais honram os seus pais e homenageiam os amigos mais virtuosos. Bebem, comem e excitam-se como animais incomodados. Acostumam os filhos a uma vida limpa e simples. E examinam três vezes as ações do dia. Escolhem os seus males livremente, desprezam o bem que lhes está próximo. A sorte perturba-os. Elegem a discórdia como sua companheira natural e ocultam-na dentro de si como se fosse um bem. Falam de purificação e abstêm-se dos alimentos que a perturbam. Aprendem a libertar as almas dos corpos. O vento lavra-lhes as terras. Dentro das arcas guardam as lágrimas mais salgadas, as angústias mais densas, as trevas mais azuis, as ondas, o murmúrio do tempo, os mantos púrpura onde as suas mulheres repousam o rosto quando parem, as frases mais terríveis, as palavras mais atentas, a imensa exigência das mudanças, as invocações mais justas e o verbo perdoar debruado com fragmentos do apocalipse. A sua sorte é gloriosa, o seu destino honroso, o seu olhar agitado. A memória ferve em lamentações. O tempo ganhou bolor e transformou-se em epitáfio. A glória perdeu o seu valor. Os pais deixaram de ser justiceiros depois de matarem o tirano e esconderam as espadas debaixo dos ramos de mirtos. Os seus belos rapazes aprenderam a tocar liras de marfim e aprenderam a levar as moças aos bailes. Coroaram-se de flores e cantaram a alegria da sensatez. O vento sul levou as nuvens para longe. Alguém lhes disse que os deuses também nasceram e se vestem como eles, que possuem corpo e voz e desejos. E eles acreditaram. Os sábios atravessaram as cidades montados em cavalos prudentes. As filhas do sol indicaram-lhe o trilho da redenção. Abriram-lhes os caminhos da noite e do dia, ergueram uma estátua em honra da justiça implacável e abriram-lhes as portas dos palácios. As donzelas transformaram-se em vocábulos doces. Então a verdade ficou redonda e as opiniões dos homens deixaram de merecer verdadeiro crédito. Enquanto dormiam, nuvens sombrias esconderam as estrelas. Pelas ruelas deslizaram os seus inimigos, alguns deles feridos pela má sorte. A mortalidade cresceu num instante. Uma luz divina cegou-os com o seu clarão. O orgulho trouxe-lhes de novo a mortalidade, concedendo-lhes a glória efémera do envelhecimento. Os deuses enviaram-lhes desgraças insuportáveis escondidas na sua própria sombra. Aprenderam então a distinguir tudo aquilo que é agradável do que é penoso. As suas almas deixaram de aspirar à vida eterna e começaram a esgotar todas as possibilidades. Também os sonhos possuem duas portas.

