Quinta-feira, 20 de Abril de 2017

Poema Infinito (351): A comoção dos enigmas

 

 

 

O vento já enxugou o medo. Alguém acendeu as velas no meio da bruma. O pão quente fumega no tabuleiro. O oleiro arredondou a cantarinha. O eremita acorda acasalado com a sua solidão. As aves bebem a água nas folhas. Ao longe ouve-se o vento, as vozes e os chocalhos. A avó muge a Branca de Neve, antes de descer a calçada. A terra cheira a todas as estações. As mãos lavam o rosto e a alma, pegam nas cordas, mexem nos ramos das árvores. Planta-se o dia pelo meio do sabor a fumo. Cai do céu uma merugem sentimental. A manhã luze como se fosse água pura. Os olhos dão poesia às rosas, aceitam os prados, juntam o pão e os poemas. Nas searas sossegam as espigas. Na eira havemos de debulhá-las ao sol. O camponês envergonha-se de pronunciar palavras doces, farto que está das pedras, dos animais, das alfaias e das geadas. Revejo a vida na imprudência de uma lavandisca. Alguns versos são como regos, outros imitam o sossego do chão. Reza-se para que durante a segada não saltem as mãos aos ceifadores. O sobressalto toma conta de nós, gota a gota, grão a grão. Junto da fogueira, a nossa memória amorna. Já lá vai o inverno, a neve e a mocidade. No meio das pedras continuam a desabrochar as flores mais pequenas e mais belas. As mãos dos meninos enlevam o trevo e acariciam os rostos das suas mães que choram de alegria. Elas sentem o amor subir-lhes pela língua e apertam os lábios. Os raios de sol douram os besouros. O centeio começa a tombar, as pombas voam em círculos. Vejo ainda um toque de azul nos vidros frios das janelas viradas a norte. A escuridão desfez-se no aro da madrugada. O rio engoliu as estrelas. Os peixes tremem como anjos. Ontem aprendemos a cantar o tempo, a mágoa eterna, os anos cansados de outono, os braços que tomam a vida, as palavras que se expandem nos regaços das mães e a anunciação dos sonhos. Nem o riso nem a tristeza são aquilo que parecem. Os gestos mais claros são sempre mais breves. E o retrato antigo do poeta lá resiste de lacinho branco, vela trabalhada e sorriso fixo.  Olho-o no sonho e tento esquecer-me da brevidade das flores. Perdem-se os corpos e os aromas. O vincelho da morte a todos une. O estio virá de monte em monte sentir o desejo, a indiferença e a quietude do rio. Cresço dentro do meu vagar. A saudade reflete-se em mim como as estrelas num lago. A luz volta a alegrar as nuvens. Os pássaros voam para dentro das suas distâncias. As mães mondam as flores, recitam os versos das cartilhas, divertem-se branqueando o amor, acariciam os seus filhos com gestos puros. Esquecem as humilhações enquanto se penteiam, entoam canções de subterfúgios, calcam as sementes com o vestígio dos seus pés, como se dançassem uma cantiga de roda. Deixaram de estar presas às névoas, às intenções e às ofensas. Limpam o tempo e o desejo, lavram o amor, sacham o milho, regam a fertilidade, apaziguam as insinuações e aguentam os ciclos lunares. Comovem-se com os enigmas, tentam decifrar as almas e as horas de espera. Os seus olhares ficam compridos. Removem a tristeza e a terra com a enxada da persistência. Anulam a distância entre o dia e a noite. Acordo com o orvalho a turbar-me o olhar. De que me lembro? Tão grande é o dia como a romaria. Que raio de mania, colho sempre o meu ramo de flores nos silvados. 


publicado por João Madureira às 07:15
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