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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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03
Ago17

Poema Infinito (366): A identificação do sacrifício

João Madureira

 

 

Perdemo-nos no palheiro do tempo à procura da agulha com que se coseu o sentido da vida. Por ali anda o cheiro da meninice e a sombra da mocidade, cobrindo por vezes o sol ou trazendo a claridade. A imagem do momento é já outro local. Os teus olhos são tentadores. Os meus pedem água porque adivinham a tua exaltação. A terra é possessiva e os rios correm como versos lentos. A saudade está agora emoldurada como se fosse um retrato imenso. Rima a saudade com a semelhança. Reproduzo o gosto de ser criança. Mas as imagens mudaram. As sementes puras são repentinas. Os profetas anunciam novos dias, um tempo renovado, são como as rotinas do sol pousando sobre as colinas. Acordamos de um sono paciente tentando futurar o alvorecer. A serenidade continua inquieta. O nosso salvamento germinará dessa forma de imprecisão, dessa proximidade com a alvorada, dessa luz construída sobre os abismos. A esperança é fiel à consciência, à paixão temerária do passado. Veste-nos o sol com um limbo de candura e júbilo. O rasto do dia de amanhã foi encontrado hoje. A voz dos pássaros quebra o silêncio da claridade. Os versos parecem condenados ao purgatório à espera da purificação de serem ouvidos. Alguém canta dentro da memória. Os meninos afinam as suas imagens rústicas. Olhamos para o poente, a tarde sorri de forma aberta, os nossos sexos foram de novo sacramentados. As horas parecem distraídas, adivinhando a solidão da noite, o seu desassossego, a sua eternidade parada. No jardim aberto à luz da vida crescem flores de infância, rostos cândidos, destinos recuados, jogos da cabra-cega, adorações subversivas, ervas da inquietação, folhas do tempo, flores do perdão, negativos fotográficos, arbustos de claridade, mitos, amores perdidos, vontades embriagadas, portas de evasão, vegetais de rebeldia, novos pecados originais, versos amargos, árvores de pesadelo, momentos perdidos, expressões instintivas, flores de recusa, sínteses, exatidões, raros momentos de inspiração, arvorezinhas da impaciência, versos de fantasia e inutilidade, flores de outros anos e milagres de imaginação. Nos templos moram agora os heréticos iluminados, deusas do amor pornográfico e anjos indiretos. Os animais no paraíso morrem de fome e sede e de falta de vontade. São possuídos pela raiva das paisagens, pelos comportamentos vigilantes. Adão e Eva confundem tudo: o bem e o mal, o instinto e a razão, a verdade e a mentira, Deus e o Demónio, a normalidade e a loucura, a pureza e a dissolução. E celebram os deuses sublimados. No entanto, sofrem a vida sem horizontes, os gritos apertados, a solidão, a forma negativa de benevolência, o infiel amor de Deus. Depois desesperam. E contam fábulas famosas e moralizadoras em verso e em prosa. Toda a gente os acha inteligentes porque fixam os nomes, cantam a fartura e dizem conseguir ouvir os segredos divinos. O sono que antecede a eternidade navega num mar de tempo parado. Na floresta corre uma ligeira brisa, a tarde ondula na sua calma, na ramagem de algumas árvores crescem de forma invisível poemas e silêncios. E evidências. A solidão continua pendurada nos ramos mais altos dos carvalhos. Os pássaros começam a perder os seus nomes. As horas prendem-se umas nas outras pensando que vão morrer. Cristo foi uma vez mais identificado dentro da sua via-sacra, mordido pelo beijo de Judas e pelo chicote do soldado romano. O povo que diz amá-lo reinicia o seu prenúncio de lamento. O céu é, afinal, um abismo de pecadores.

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