Quinta-feira, 28 de Setembro de 2017

Poema Infinito (373): A hora da visitação

 

 

A ira transforma o dia em pó. O futuro vibra seguro do seu juízo de valor. Criaturas ressuscitam trespassadas pelas respostas escritas nos livros mais antigos. As perguntas continuam impunes. Salve-nos Deus da piedade, desse seu carinho amargo, da remissão dos pecados, de penar na cruz, dos choros desperdiçados, da absolvição dos malditos, da redenção dos benditos e dos dias lacrimosos, prostrados, remediados e contritos pelas rezas. Afundamo-nos na noite, no fogo da caridade, sonhamos com o sermão aos peixes. Sentimos a brevidade da vida, a direção da água que se repete, o arrojo verbal dos pregadores, a presunção da audácia, a escravatura humana do tempo, o som difuso das ovelhas tresmalhadas. Alguém acende o lume com uma concha de sol. Aceitamos então o silêncio, a noite e a memória dos corpos. Visitam-nos orações desmerecidas, pecados e preces. Vagaroso e profundo é o frio do ferro. O tempo flutua. As imagens são como erros. Até a realidade se oculta. A dúvida dos anjos mistura pedras e flores. A alegria derrama dor. O universo é vagaroso. Os meninos continuam a perder as lágrimas, a afligir-se com as bolas, a fazerem o pino ao contrário. Levam-nos cavalos de fogo. Os cavaleiros são como sombras de muros que caem nos precipícios invocando Deus. Dorme o tempo numa catedral emprestada. As sementes comovem-se na terra. Nem no sono sossegamos. Sentimos a ausência da saudade. As teias constroem-se fio a fio. O futuro continua a ser feito de passado. A voz desmente sempre a divindade. Parece que tudo arde. Tenho vontade de ir. Nos montes acomoda-se o nevoeiro, as aves sossegam gerando os seus ovos. O pão é escuro, o horizonte estéril. Esta paz é feita de sombra. Os rostos pardos são imagens de inocência. Os seus olhos cansados refletem o medo. Saem as horas de nós e sobem como o fumo de tudo aquilo que arde. Tudo está disposto como no enigma de Deus: os espinhos, o sangue e os céus invadidos, as pedras, a misericórdia, os filhos que regressam e aqueles que se vão, os atos demoníacos, a insensatez, as moedas com que se pagam as traições, as chagas e os estigmas. É tempo de provação. Os segredos são perduráveis. O tempo é lonjura. Nascemos do nada. Deus também aí foi gerado. Somos filhos da dor e da amargura, da dignidade do resgate, das horas desiguais, do espanto, da solicitude, da vontade oculta, do sentimento frágil da força, da atenção e da luxúria, da noite e da aurora, da espera, do amor e do vazio que provoca. O chão está batido pelos anos e a terra em pousio. As lágrimas ficaram mais lúcidas. As cobras já não nos metem medo. Mas o mal continua aceso na noite. O vagar vem lá de longe ter connosco. As nuvens continuam a navegar no céu. O caminho ainda é de ida e volta. Batem as horas no sino da torre. As pombas procuram algum grão espalhado pela eira. Vários frutos abrem-se, outros murcham. O vento sabe a sal ou como as lágrimas guardadas na cisterna. Uma toalha de linho borda e define os contornos da mesa velha. A dor e as velas continuam acesas no meio da sala. Algumas das folhas caídas no chão parecem peças do puzzle com que se constrói o Santo Sudário. Está na hora da visitação. As pessoas passam por entre as pedras e as flores como se fossem anjos arrependidos.


publicado por João Madureira às 07:15
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