Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017

Poema Infinito (376): O desconcerto da linguagem

 

 

Desejo ser o apetite do teu corpo e dos teus olhos. Todos os pedaços de mim constroem um novo menino. Continuo a preferir as linhas tortas, onde os deuses se perdem e eu me encontro. Eu não possuo esplendor. Procuro que o meu referente seja a cintilação. E o trabalho árduo da confirmação. Continuo a limpar as palavras, a atrapalhar-me com as significâncias, a vigiar as tentações, a tentar higienizar a solenidade. Ouço as aves, Bach e o choro do dia que morre dentro de mim. As vozes acompanham os andores e a loucura dos desencontros e todos os delírios verbais. Baudelaire continua tenso à procura de títulos para os poemas. Ninguém consegue resolver o conflito dos seus versos. A beleza e a dor congregam toda a síntese. Nascemos para administrar a inutilidade, para operar as imagens, para repetir semelhanças. Por vezes conseguimos encontrar a clareza e a aptidão vegetal. A ciência ainda não é capaz de medir o encanto e de calcular o divino. As coisas que não têm dimensão são as mais importantes. Tudo o que é ínfimo é exuberante. Deus apropria-se do abandono. O seu orgulho é incomensurável. Todos os sermões anunciam a solidão. Desmancho em versos tudo aquilo que aprendi: a agilidade da tolice, a prudência da sensatez, as falsas invenções, as distintas maneiras de não dizer nada, a presença de tudo aquilo que me falta, o melhor modo de explicar o contrário, a preparação dos conflitos, a ausência desamparada das palavras mais rudes, a revelação do amanhecer, a visibilidade encantada das ilusões, a imperfeição das certezas, a inércia do amor, a sabedoria anormal das árvores, o estigma das expressões, o desejo circunspecto dos horizontes, as palavras que escondemos com cuidado, as palavras que nos acham e toda a terapia literária indispensável para desconcertar a linguagem. Quando descobrimos a verdade estamos mesmo à beira do nada. A natureza é um erro. Estou sempre a ir-me embora do lugar onde me encontro. Todos os verdadeiros artistas iluminam o obscuro, inventam as tintas, podam as palavras, derretem as formas e incorporam novas imagens. O efeito natural da luz constrói novos brinquedos. As expressões mais sérias não costumam sonhar. Então o silêncio sai da sua forma. Oiço vozes encostadas ao escuro falando da eternidade e sinto um forte odor a extinção. As indulgências conduzem o homem ao seu melhor aniquilamento. A salvação anda pelos becos. Concentro-me agora na escrita de uma nova biografia do rocio. O início do dia chega com atraso. Os loucos improvisam a conquista da perfeição, transformam-se em pessoas de vento e arborizam as aves mais modestas. As mariposas trocam de arbusto e os outros insetos cristalizam o cheiro a sol. Predominam os lírios dentro dos nossos olhos. As plantas são como bocas a crescer de desejo. O cio vegetal junta-se ao murmúrio das águas. A chuva encontrará de novo a sua solidão. Nos lugares mais isolados germinam as horas que se preparam para chegar. A noite deita-se agora sobre os nossos corpos. As memórias ficam mais favoráveis. Escutamos o rio a correr por entre as pedras. O mago espalha o fumo e os duendes cortam as unhas. Sinto a nostalgia dos brinquedos tristes. Sonho com uma árvore que plantei e cresceu torta. Nela não cabem os pássaros que a procuram. Lembro-me que a estaquei com elementos de física quântica e que de nada lhe serviu. Agora agrafo palavras como se fosse cego.


publicado por João Madureira às 07:15
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