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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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26
Out17

Poema Infinito (377): Símbolos e sonhos

João Madureira

 

 

Atravesso a larga janela emoldurada pelo sul. O céu azul responde-me com serenidade. A paisagem está repleta de ânsia. Regresso à terra possuído pelo encanto do amanhecer. As raízes continuam quentes e profanas. Permanece a pureza dos campos, o movimento escrito nos caminhos, as folhas, o granito, os versos e a solidão. A beleza vive rodeada de solidão. O silêncio tem o sabor salgado das lágrimas. Ninguém modificou a vontade. Os textos são como ninhos de saudade. Os quintais parecem livros desarrumados. A fogueira arde como se fosse eterna. A excitação cria os sentidos, os olhos comovidos, o mistério da descoberta, o gesto natural das sementeiras, os símbolos que são como frutos. A lei continua na arca junto ao centeio. O vento passa carregado de sonhos. O tempo ilumina tudo aquilo que dizemos. Deusas despidas ajoelham-se junto à fonte e depois diluem-se repletas de desejo. Eva não virá neste inverno. Sobrarão as maçãs. Deitamo-nos num colchão de folhas. As tardes duram pouco, sente-se o desalento, os momentos mais cansados. A solidão parece uma flor aberta. Os sonhos repousam nas mãos abertas. Dormem os deuses no crepúsculo, sem esplendor, frios como fogueiras extintas. As divindades tentam aparentar humanidade. A ternura é agora uma palavra cansada. Cristo ressuscita no meio de versos, coberto com uma túnica de linho, dividindo os apóstolos e os soldados, confundindo as mulheres, vestindo as crianças de luz, colocando estrelas na testa das mães, fazendo sorrir as memórias, espantando o medo, combatendo a monotonia do arco-íris, pintando de verde o vinho, a dor e o mar. Os versos azuis confundem-se com a espuma dos oceanos, as ondas ameaçam fúria, o chão fica mais incerto, os gritos mais abertos e as vogais mais redondas. Alguns pássaros dobram as asas e caem sem um único protesto. Os caminhos enchem-se de flores e os pés desenham neles os seus passos. A incerteza está na direção a tomar. A coragem verdadeira por vezes consegue chegar a horas. Os pregadores falam das quimeras do tempo que já passou, da fé que continua a murchar, do amor que morre abandonado, das igrejas desamparadas, dos corpos impotentes, do enamoramento dos jardins, da serenidade da espera, do renascimento, do futuro, da virgindade austera, da fidelidade, das expressões de pureza e dos caminhos demorados da tristeza. Diz que Deus é capaz de comer montanhas, de beber o próprio mar, de redimir a primavera, de se embebedar por telepatia, de libertar o mundo das certezas. Junto à ribeira cresce de novo a ternura, o vento peneira o lirismo, o fauno treme de frio. Cheira a seiva, a floração e a cio. As sementes rebentam como se fossem eternas. A virilidade divina é um mito. Um silêncio grave rasga a paisagem. O chão onde nasci já não magoa os meus pés. Sou uma criatura frágil. A ponte da Clérga continua inquieta. O soalho da casa continua impreciso. A sala estiola de fantasia. A aldeia parece um museu a céu aberto cheia de caos e de correntes de ar. Abro a porta para arejar a dor. Ninguém canta. Alguém emparedou as melodias. O destino voltou a enganar-se. O camponês já não canta nem semeia a terra. Espalhada pelo tempo, a angústia ficou ainda mais secreta. As casas parecem chagas. O ruído vem de muito longe. As palavras perderam a claridade. Morre-se devagar. O tempo é como um punhal de aço. Tento encontrar os sonhos perdidos. Ficam as sombras. As andorinhas vêm chocar mais imagens. Os milagres não têm cor.

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