Quinta-feira, 30 de Novembro de 2017

Poema Infinito (382): Revelações solares

 

 

Arde a tarde dentro da nossa alegria. O sol revela a angústia do meio-dia. A fogueira arderá dentro da noite. As pombas ainda parecem felizes entretendo-se a catar os piolhos da eternidade. A verdade morre dentro de Deus. A ilha está repleta de sombra. A luz do mar evidencia ainda mais o vazio. As horas parecem agónicas. Colho as flores que restam do teu sorriso maravilhado. As suas pétalas aquecem-me as mãos. Navegam as aves no céu azul entre as montanhas e as ondulações mais suaves. Confundo as sensações mais perturbadoras. Os poetas são imoderados. Acreditam que a loucura é o dom eterno de cada criatura. Por isso se comovem sem motivo aparente, por isso erguem templos de luz inconformada, por isso acreditam na inocência das rosas e jogam contra o destino, misturam as horas, arriscam a consciência em atos de sorte, triunfam nas derrotas, conseguem mesmo aprender o tamanho das divindades, os rituais da noite, os sinais que originam os ventos, os lugares do sol no firmamento, as raízes profanas da humanidade, as certezas que merecem ser esquecidas e aquelas que devem ser lembradas. Todo o tipo de pureza justifica o voo dos colibris, a ascensão dos nenúfares, o milagre das mãos aladas, a contrição com que os pais explicam os filhos, as sementes que crescem junto da terra dos sonhos, os sinais que descobrem os caminhos, os reis magos que adivinham a luz das estrelas madrugadoras, os presépios nus, o deserto em que se transformou Belém. As imagens de Deus são como clarões carregados de negrura, onde os raios que iluminam a vida se estendem passivamente sobre o presente. O futuro vem carregado de um frio prematuro, anunciado pelas paisagens íntimas, guiado pelo fio fino dos versos, impregnado de labirintos, sedento de aventuras e sentimentos inquietos. A mulher é o centro do infinito. São os minotauros quem continua a devorar as horas, a tornar secretos os destinos, a anunciar os nascimentos, a batizar os padrinhos, a espalhar o sofrimento pelos caminhos. Os poetas perdem agora os apelidos, escrevem os seus nomes temerários com versos esdrúxulos, estranham os ermos onde foram criados, misturam o amor com circunstância e depois sentem vibrar dentro de si a solidão. Gemem através de palavras velhas e sagradas, pousam o destino nas mãos da piedade, inventam a sua própria carne tatuada. Abrem então as mãos e semeiam ilusões, podam versos bravios. Todos os milagres são amargos. Alimentam-se através das raízes que se multiplicam nos pomares, nos hortos e nos jardins.  Lembro-me do colo divino da minha mãe, do seu sentido calmo e figurado. Este tipo de presente é árido. Deusas desinspiradas tentam em vão purificar a vida. Os poetas talvez consigam cobrir os seus versos de renovo, distinguir as seivas, definir as rugas, agasalhar o pânico, vestir de vez a nudez inconformada. As asas dos anjos latejam de cansadas. O seu génio continua amaldiçoado. Nem toda a felicidade é repousante. A poesia continua. O desespero também. O silêncio do tempo abre os caminhos que não vão dar a lado nenhum. Os dedos da avó continuam a bordar a inquietação mais pura. As chagas dos montes estão cada vez mais fundas. As planícies refletem a solidão. Sentimo-nos levitar até ao céu mais alto. Depois triunfam as leis da gravidade. A loucura e a inspiração voam com as aves. Hesitamos na direção a tomar. Afinal quem é que nunca se enganou na estrada verdadeira?


publicado por João Madureira às 07:15
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