Quinta-feira, 7 de Dezembro de 2017

Poema Infinito (383): Paris-Texas

 

 

Agradeço-te as confissões moderadas, compreendo a precaução e lembro alguns dos conselhos recebidos na infância. Atravesso a rua como se atravessasse a cidade. E atravesso a cidade como se atravessasse o mar. Olho para os dois lados de uma pessoa por precaução indispensável. Os homens têm sempre, pelo menos, dois lados. São como cubos de face dupla. Algumas pessoas partem antes de chegar a chuva. São como duas metades desencontradas. Procuram a amizade homogénea. Anotam, apontam e admiram-se. Cruzam amigavelmente a sua parecença. O egoísmo é a sua unidade. Certos festejos são assuntos tácteis, não evidenciam alegria, nem felicidade, apenas um ligeiro júbilo anexo ao corpo. Sentir os sons torna-se uma evidência. Os homens falam depressa mas não conseguem articular as frases até ao fim. Pensam que Paris é um ponto final, que a noite é redonda, que as árvores são possuídas por uma espécie de invisibilidade divina. A noite parece inteira mas está cheia de buracos. Os homens mastigam uma inimizade que muito em breve será evidente. É clara no horizonte a luz do rio, a velocidade da água, a rapidez da chuva. As crianças mais longínquas parecem distraídas mas observam a pressa da luz do sol. As catedrais exibem o seu espanto manso, a sua arquitetura religiosa e escondem a violência sepultada, envolta em mantos de desespero. Os animais mais rápidos ganham impulso e avançam. O seu olhar continua firme e torna-se ainda mais ágil. Deus passeia a sua exatidão, distribuindo o desespero pelos pontos cardeais. A acrobacia dos homens torna-se perigosa. Estão eufóricos. A vaidade é o seu júbilo. As cores dão um novo significado à beleza. Afinal de contas, estamos em Paris. As portas são mais atraentes, a necessidade é mais sedutora, o espanto mais admirável. A vaidade e o egoísmo adquirem novo significado. A perseverança dos edifícios convida a entrar. As cores sentem-se observadas e as torres mais altas salientam a irrelevância das mais baixas. Os espaços incham. Os gestos simpatizam com a síntese dos corpos. As mulheres vestem o seu estilo literário e ganham volume pessoal. Os contornos dos seus corpos iluminam os caminhos. No entanto, o dia fica mais público, mais anónimo, mais impúdico. Na natureza humana tudo tem um preço. As crianças ficam mais fragmentadas, praticam os seus exercícios ingénuos e iludem as paisagens. Virá o tempo em que os acontecimentos ficarão mais coerentes e ganharão novo sentido e outra lógica. A luz ficará mais homogénea e equilibrará os corpos e os seus atos. O tédio é propriedade universal. Nos campos crescem as ervas e as brincadeiras. A memória da infância aquece-se ao sol. A fé estende-se em cima de mapas lunares. Contas-me nova história e insistes em Paris. A personagem principal é uma pessoa forte que comenta a vida a uma pessoa fraca. A pessoa fraca concentra-se nos pormenores e adormece. Os sítios são lentos, o futuro insignificante e a natureza pacata. Os homens tentam caçar os acontecimentos como se eles fossem borboletas excitadas pelo sol e pelo voo. As paixões são enormes e os factos sentidos e desordenados. Todo o descanso é volátil. Os acenos são breves. Alguém diz que os homens se conhecem por aquilo que leem. As paixões também podem matar. E os pormenores. E o medo. E as certezas. Os homens crescem no meio de caraterísticas opostas, revelando desconforto e um novo género de inteligência inútil. Uma espécie de léxico mudo ameaça a eternidade. A imaginação encontra a sua forma fisionómica. O desejo do corpo não tem mais espaço para cálculos mentais.


publicado por João Madureira às 07:15
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