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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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14
Dez17

Poema Infinito (384): O voo tangencial da glória

João Madureira

 

 

A minha mãe voa dentro do meu pensamento. Abraço-a em busca de alívio. A dor devora a felicidade de outrora. Os carinhos atravessam o espaço mitigando a dor. Recebo a saudade como um sofrimento. O verdor dos anos era então tão inocente como a bonina, tão belo como os anjos, tão cândido como um catecismo aberto. A virtude tinha nesse tempo o tamanho da inspiração, a mesma crueldade enternecida, a mesma ventura dos sonhos mais ditosos, das ilusões mais prazenteiras, dos gozos mais eróticos, das masturbações mais gemidas, dos voos mais tristes. Por vezes alguém nasce feliz. O tempo vem agora mais amargo, mais destruidor. No entanto, as primaveras são mais vigorosas, as plantas mais rasteiras e o medo mais solto. O Criador gerou-nos a medo, como se fossemos astros sem perfume, como se fossemos auroras que não despontam. Sentimos a luz do sol na sua essência campestre. Os castelos murmuram segredos místicos. As aves noturnas voam sobre as sombras das muralhas mais cansadas. Os terraços estão habitados por fantasmas. O castelo aparece e desaparece perante a incredulidade dos nossos olhos. As horas estão mais sombrias, mais misteriosas. Os velhos são atualmente mais rígidos, mais altivos, mais generosos e mais fortes. Os que foram guerreiros voltam agora os rostos às armas. Já não veneram as tradições dos seus antepassados. Até Deus se cansou dos combates. A glória repousa nas arcas mais antigas, ao lado da morte taciturna. Nas salas mais amplas ouvem-se os delírios mais pungentes. Antigamente a glória acenava do lado do futuro, os homens iam para as festas e tocavam ao de leve no prazer e as mulheres guardavam os segredos mais íntimos. Os sonhos também eram mais pesados e repletos de ingratidão. Os heróis confundiam-se nas sombras, ou desciam na noite em forma de luar e banhavam-se tremeluzindo como as estrelas, mutilando o frio, enquanto ao longe as virgens erguiam cruzes mutiladas pelo incesto dos murmúrios, deslizavam pelo ar como se fossem feitas de transparência, encrespando as águas serenas do lago, desenhando as brisas, ampliando o desejo e os espaços, beijando os segredos, mostrando os seios e os sexos como se fossem anjos pecadores. As suas vozes eram magoadas, repletas de angústia, ordenando a honra, combatendo a ânsia, sustendo as lágrimas e os choros, deixando cintilar nos seus olhos a luz da divindade. Os loucos correm sempre atrás de uma chama vã. Os outros, os que nascem do lado de lá do abismo, julgam-se nobres e brilhantes, amando Deus como se fosse uma distância, ou uma alma ascendente, ou um laço invisível. Os heróis mais atuais livraram-se das quimeras, dos júbilos mais inflamados, dos sons mais agudos e das amantes mais libidinosas. São como mancebos aterrados, esperando nas casas dos pais o sinal da hora da partida e a sua força irresistível. As suas armaduras brilham como se fossem feitas de sonhos. Virão cobertos de glória. Ou não virão. Nada os prende à terra. O seu tempo é de aventuras. Os velhos suspiram, as mães choram gotas silenciosas. Alguém fala da memória dos antepassados, da honra, dos horizontes imensos, do sol mais ardente, dos tronos reclinados no cimo das montanhas, do túmulo de Cristo, das auroras divinas, dos berços da inocência, do mundo novo e da terra santa. As novas gerações começam então a rodar e somem-se no tempo. Cada pedra será um martírio, cada grão uma boa ação. É tão longa a saudade como as ondas do mar bravio. Jerusalém não é uma terra sacrossanta de prodígios, mas um lugar de martírio. Cristo e os apóstolos continuam perdidos no deserto.

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