Quinta-feira, 21 de Dezembro de 2017

Poema Infinito (385): O contínuo desespero da espera

 

 

No princípio do mundo os navios cavalgavam sobre os espelhos dos olhos de Deus. O mar era frio e verde e as ondas tão leves como o corpo da mulher que amamos. No primeiro instante, o ar tomou conta do vazio e os continentes e os oceanos foram talhados cerces. Deus começou de imediato a desobedecer ao seu criador. O sol ficou macio e o frio começou a amadurar. As manhãs ficaram fortes e silentes. Apareceram então os primeiros seres em forma de água e neve. E as mãos começaram a construir as horas. Os espíritos benzeram o fruto das mulheres e o Senhor foi ter com elas para as admoestar. Primeiro engordaram, depois emagreceram e noutro depois ficaram com o cio macio e transparente. Os murmúrios tornaram-se casuais, as fontes ficaram mudas e os anjos foram incumbidos de vigiarem quem passava. Aves de fogo atravessavam os horizontes. A luz vagava pelos cais, os primeiros dias perdiam-se uns dos outros e a noite até começou por ser nada. Uns e outros dormiam e sonhavam e desmentiam-se. As almas aprenderam a estar caladas, a apreciarem as sombras, a desenvolverem o movimento das águas, a fluir e a refluir e a esperarem pela indiferença de tudo aquilo que é velho. Algumas delas trocaram de corpo e saíram para a luz do dia. Tornaram-se pecadoras. O céu era então oleoso, abstrato, como um pensamento contínuo. Ninguém guardava nada. Todo o entendimento era mudo. Toda a harmonia era casta, todas as indicações eram vagas. Nasceu então uma outra luz e com ela surgiram as primaveras, os campos, o bem e o mal. Depois o tempo passou muito depressa e os deuses ficaram loiros e os homens tornaram-se pastores e converteram-se em reis e servos uns dos outros. Os sorrisos transformaram-se em pretextos de felicidade. Ainda hoje são assim. Chegaram então as querelas e as ovelhas tiveram de atravessar estradas. Pousaram então os pormenores sobre os momentos. Por isso, quando pensamos em coisas velhas somos atacados pelo desdém. Os sorrisos deixaram de ter passado. A sabedoria declinou a delicadeza e os pastores deixaram de regressar a casa e as ovelhas ao pasto. A terra transformou-se num enorme cinema, cheia de senhores de guerra e anjos azuis e mulheres perdidas e jogos livres. Todos ficaram cansados de esperar, os dias danados e as noites fatigadas de demorar. Diana, a caçadora, principiou a jogar com pérolas de água salgada e a dormir na sua cama de mar. Surgiram nesse tempo os sorrisos tristes, os pressentimentos, os olhos puros e rasados de água e vários e distintos mundos futuros. Os carreiros ficaram fundos e as almas extensas como praias. Dos lados não ficou nada. As ondas permaneceram largas, o medo procurou a alegria e os deuses os montes. Os eremitas trocaram o sul pelo norte e aprenderam a afinar os instrumentos com que tocavam o silêncio. Ascendiam e descendiam enviando a sua voz de forma contínua, tocando as notas de sol a dó nos tons médios das flautas. Um tempo houve, dizia Deus, em que eu pedi a Deus a raiz do céu. Apareceram então as façanhas amorosas, as vozes de segundo plano, a grande força e os desmanchos, a pressão progressiva dos sexos. Nossa Senhora pediu o céu, Teresa implorou pelas dores, Inês suplicou rosas, Madalena fugiu de casa, Joana matou o seu rei, Nazaré nasceu predestinada, Maria emprenhou por vontade de Deus com a ajuda prestimosa do anjo Gabriel, dizendo-lhe que era a escolhida, mas também a serva e também a vida. Jesus depois foi crucificado e morto. Aquando da sua ressurreição, tudo deixou de fazer sentido.


publicado por João Madureira às 07:15
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