Quinta-feira, 4 de Janeiro de 2018

Poema Infinito (386): A prudência dos anjos

 

 

O sétimo anjo apareceu do nada e derramou a sua taça de inocência sobre o rio Tâmega. Os anjos que restam parecem pessoas verdadeiras, com pensamento próprio disfarçando-se bem com o corpo dos mortais. No entanto, as suas lembranças são vazias. Vazios são também os lugares que ocupam. Navegam as ondas do mar e continuam a nascer e a rebentar como se fossem gomos de laranjeira. Nomeiam os desaparecidos e as ruas e deixam-se morrer todos os dias para ressuscitarem no dia seguinte. Procuram a dignidade, a capa dos segredos e os sonos horizontais. Trincam o pão, vestem-se com as capas da dignidade mais antiga e recebem de pé a chegada das estações. Saúdam, ao passar, os homens e o seu tempo. Olham as mulheres e os seus corpos excessivos e procuram pelas ruas ideias respeitáveis. Os seus excessos são devidamente garantidos. Dispõem os nomes de todas as coisas e dão-nos a conhecer aos humanos. Cheiram as promessas e colocam-se numa posição privilegiada. Muitos deles voltam a morrer ao ler os anúncios dos jornais. Entre eles há mesmo quem faça versos com todas as licenças essenciais. Parecem pessoas seguras de si. Nas árvores do Paraíso rebentam várias gerações espontâneas. Também lá se proferem as primeiras palavras como se fossem as últimas. Ouvem-se as primeiras sinfonias. Várias mulheres procuram o sexo dos homens. E vice-versa. Os poetas obrigam o estio a ser-lhes fiel. Querem escrever poemas de natal, para se aliviarem. Os anjos imolam imagens, derramam o seu sangue pela terra, procuram Abel e depois Zacarias e o seu filho que foi liquidado entre a igreja e a ara. Louvam a dignidade dos velhos, as horas da partida, os gestos simples das crianças, os corpos lascivos, os olhares repletos de surpresas. Saúdam a chuva que cai, as palavras que adivinham, a orientação peculiar dos sexos em momento de procriação. Depois ficam tensos como arcos. A sua forma aparentemente leve solicita-lhes um sorriso de disfarce. São como recém-nascidos. Os seus braços ficam vagarosos, enquanto a tarde desce sobre a configuração das mãos dos homens e das mulheres que rezam. As mulheres e os homens não dizem poemas. Rezam para morrer tranquilos, por isso desejam ideias regulares e horas certas de trabalho. As palavras sagradas continuam anónimas. Deus esconde-as dentro da boca, onde guarda a emoção e a imortalidade. Os anjos parecem gatos atravessando o dia, vestidos de prudência, colecionando impulsos de amor e desejo. O silêncio une-os. Todos sonhamos com manhãs imensas, com Jerusalém, com um deus de face persistente, com rios que banham os templos como se fossem verídicos. Também as mulheres mais novas vêm dos velhos dias, ajoelham-se nas nuvens e erguem-se à altura dos filhos. Estendem os braços tentando guardar os seus templos domésticos. Muitas procuram os filhos nos túneis do tempo, escondem as faces, perdem-se no meio da multidão. Lá estão os mesmos olhos, as mesmas necessidades, os planetas sem luz, os cânticos harmónicos dos galos, os lençóis que envolvem a aurora, os arroios, os pássaros longínquos, a lenta impressão das neblinas, os meninos que vão para a escola, os homens e as mulheres sujeitas ao mesmo tempo, os lindos corpos dos amantes, a verdade atraente das sombras, a virtude das memórias. Os choupos estão mais velhos e as esquinas mais agudas. Os anjos têm agora os mesmos desejos dos pecadores. Uma aragem fria vem alterar a sensibilidade do tempo. Na longa avenida, a procissão segue o mesmo paradoxo de há cem séculos. Nos telhados, os anjos mudam de beiral.


publicado por João Madureira às 07:15
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