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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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25
Jan18

Poema Infinito (389): Imagens refletidas no abismo

João Madureira

 

 

Recuperei hoje o teu nome dentro dos meus sonhos. Foi aí que também encontrei a tua pele perfumada. Os teus dedos eram aves de primavera. Na tua boca ainda havia restos de canções. O vento despiu-te a camisola e ficaste exausta como a respiração de um peixe fora de água. Por isso, os meus versos são contundentes, cobertos de gestos, sulcados pela solidão e pelas paisagens abandonadas. O teu nome é agora mais vagaroso, parece uma porta que se abre pela manhã para entrar o sol. Frios são os batentes. No outono, as pedras agasalham-se no manto de musgo, enquanto a água das fontes desce pelo monte e o vento viaja junto aos muros. Algumas palavras queimam os lábios e o amor e a saudade. Os dias decalcam-se uns dos outros. Na mesa cresce agora o pó. A casa traja de cinzento e dentro dela desenha-se o tamanho da tua ausência. As janelas abrem-se diretamente para a solidão. Outro é o tempo, a luz segmentada, a porta onde já ninguém bate. O medo é uma outra espécie de sombra. A tua distância transforma-se em ferida. Afasto a dor como quem esconjura punhais. Perguntam-me então pelo caminho, falam-me da mortificação das montanhas, da água que galopa os rios, das nuvens que compõem as paisagens, das fendas que gemem na noite, dos penhascos, das margens das cidades que apodrecem, da terra que treme, do nevoeiro que cega, do peso do medo e das mágoas. Os sonhos seguem os mesmos passos. Tudo o que agora resta é uma caligrafia trémula de desabafos, uma espécie de carta de despedida, uma espécie de noite efémera polvilhada pela solidão. Houve tempos em que quis ser um barco, para abraçar as ondas, para perceber o sorriso do medo, para partir sem me perder nos enleios. Ninguém socorre o vento nem corrige as embarcações perdidas. Tenho o rosto debruçado sobre o teu olhar. As aves atravessam a manhã perseguidas pela exatidão dos espelhos. Procuro ainda a lei poética das cornucópias, toda a matéria contida nos paraísos, a ambiguidade das estrelas, o código da ansiedade, as cidades que levitam, a roda mecânica do futuro, o oráculo preciso das emoções, as imagens refletidas nos abismos, toda a utopia da luz. Os profetas já não perdem tempo a dividir o mundo, preferem deixá-lo entregue às metáforas. Toda a loucura procura a certeza, a balança desequilibrada da eternidade. No panteão já não habitam deuses e a anunciação já não necessita de anjos. O amor transforma-se em sede e em tristeza. O tempo está cheio de rumores. Os gritos possuem um peso específico. Vou viajar para longe para romper o caminho da luz em busca da minha terceira alma. Partirás ainda antes da mordedura do silêncio, quando a neblina escreve por mim a poesia das coincidências. As palavras repetem a inércia das montanhas, o desejo dos teus lábios, a saudade das casualidades. Guardo o meu desejo no abrigo do teu corpo agitado, lá onde se esconde a serena pressa dos caminhos. Olho-te na luz azul da tranquilidade. As manhãs pertencem-nos. Já não temos vergonha, nem da espera, nem do regresso. A voz clara dos livros soa como uma tempestade de sereias. Enaltecemos o privilégio de decidir. Leveda o pão e o vinho mais ácido. Os amantes aparecem nos lugares vagos da memória. Todos somos biografias incompletas.

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