Quinta-feira, 1 de Fevereiro de 2018

Poema Infinito (390): O lenho da redenção

 

 

Tenho as mãos cheias de tempo e de fumo.  Nas casas cresce o coração das montanhas. Agora todos os raciocínios são inúteis. Os sítios da nossa infância insistem suavemente na direção das cidades. As flores evitam o quarteirão do inverno. Quando chegar, a primavera estenderá novamente uma toalha de esperança. O vento assobia na tarde, alguns homens sentam-se à sombra dos ciprestes. Nos seus olhos cresce o deus do desespero. Parecem crianças desprevenidas. Invade-os a mesma surpresa, o mesmo amor cansado, a mesma insatisfação dos corpos, o mesmo algoritmo das estações do ano, a mesma água do outono das árvores. Apesar disso tudo, não conseguem chorar. Os seus gestos mais íntimos são os seus principais inimigos. As plantas e as crianças crescem por dentro dos dias. A impossibilidade de um outro passado torna impossível um novo futuro. Os pássaros transformam-se em símbolos. Anoitece dentro do meu sonho. O mar está sempre no mesmo lugar. O mar e o lugar onde nascem os homens. De novo se prepara a morte de Cristo. O mesmo medo cresce dentro das mulheres. A mesma técnica será aplicada. A mesma última hora será repetida, a ruas sofrerão a mesma orientação, o sangue coagulará ao longo dos passeios, o silêncio e a indiferença dos néscios terá o mesmo valor. Nos mercados vendem-se e compram-se as mesmas palavras. Até os sentimentos possuem a mesma configuração. Os acusadores exigem mais espaço para observarem o martírio. Exigem mais vontade no sacrifício, mais tenacidade no castigo, mais chicotadas no corpo indispensável do condenado. O tempo vai de novo devolver os gestos de arrependimento aos traidores, afastá-los dos caminhos do Senhor. Eles são como crianças que poupam nos gestos porque não sabem perder. As tardes continuam a ser os sítios mais precisos dos domingos. A cruz lembra-nos tudo menos a fidelidade. Afinal, o que podemos mostrar uns aos outros que não nos envergonhe? Aproximamos os lábios e queimamo-nos. Todos nos sentimos estrangeiros em Cafarnaum. Regressamos então ao páramo de Jerusalém. Os nossos amigos oferecem-nos o tempo que continua a nascer na velha arca perdida. Cruzamos as ruas onde nasce e desagua a esperança.  O povo continua a baixar os olhos quando os vendilhões transpõem os portões do templo. Já não sabemos qual é o aspeto do nosso rosto. Todos amam dentro do preço combinado. Uns bebem vinho, outros preferem ingerir o cálice da sua própria ira. Estendemos os braços para os dias que se aproximam. As paredes da velha casa parecem ainda mais sólidas. Agora que ninguém vive lá dentro. Todos regressam pela estrada de Sião, encostados ao seu desejo, à sua amargura, ao seu silêncio de pedra e cal. Cristo parece transfigurado. Deus parece ofendido. Os poetas fitam a morte despedindo-se dos amigos. Sabem que morrerão na curva perigosa dos dias, encostados ao outono, olhando o risco do tempo. Os seus gestos não representam nada. Os olhares dos pecadores descrevem a mesma órbita das oliveiras. As palavras molham os pés dos pescadores da Galileia. A chuva adivinha a orientação das suas mãos. Continuam a lançar as redes à procura de peixe. Cai-lhes no corpo a neblina da solidão. Coisas gloriosas saem-lhes de dentro da alma. Afinal, a cruz de Cristo não era mais do que um lenho carregado de dor, sofrimento e redenção. Aleluia.


publicado por João Madureira às 07:15
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