Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2018

Poema Infinito (392): A debilidade

 

A terra está débil. As flores transfiguram os campos e as casas. O chão perdeu o medo. É uma ilusão de maio, quando os comboios se afogavam sozinhos nas curvas, inundando os carris, vendo os velhos irem de fato à missa e as velhinhas a proteger-se nas chamas das velas gastas. As pequenas árvores assemelham-se a círios e os teus dedos sugerem o céu onde voam pequenos tordos que por vezes tocam a terra e pousam a cabeça no teu olhar. O trabalho de jardim é cada vez mais efémero. Antigamente corriam os rios como se fossem veias ininterruptas, benziam eucaristicamente as flores e a neve angélica fazia pequenina a vida. O agosto era ceifador. O campo costumava dormir uma espécie de sono inteligente. As cegonhas voavam silenciosas. Outras aves descuidavam-se ao bater as asas. As searas acordavam em revolta pondo em evidência as numerosas espigas de centeio. As raparigas eram lisas e os seus sorrisos eram secos e brilhantes. As horas costumavam nascer nos relógios das igrejas onde os anjos da guarda guardavam as suas auras e os monges as suas sombras. Nesse tempo viam-se as certezas passar ao longe enquanto a terra dormia um sono implacável. Por vezes as mulheres tratavam da sua higiene pessoal banhando as partes mais íntimas na água morna dos rios. Diziam que os anjos lhes beijavam os ombros e os faunos as apalpavam de forma bruta. Desse tempo guardo memórias azuis. Aos domingos levanto a cabeça e fico a ouvir o rio a descer pelo meio das pedras. Agora escrevo sobre extremos e sobre semideuses que fingem navegar imaginando-se odres cheios de vinho. Os sinos deixaram de crescer junto às igrejas, os louvores são agora demasiado doces, demasiado justos e sem glória. Apenas as oliveiras são mais pacíficas. As noites correm muito perto da superfície do tempo, quase perfeitas, como um disco novo ou um segredo suspenso. Tudo tem início nas palavras. As imagens limitam-se a exibir as mãos abertas e os beijos adquiriram a forma de ânimos indistintos. As aves e os anjos perderam as asas e os humanos viciaram a coragem. Os peixes do lago parecem inválidos e deixaram de ter medo dos anzóis. O amor é uma espécie de coincidência virtual, consumido pela gratidão. As dores dos jovens parecem orquídeas de plástico. Eu continuo a amar o chão pelas manhãs, a absorver a lucidez enquanto durmo, a caligrafar níscaros, a ver nas sombras a expetativa do sol, a duvidar das certezas, a deixar-me assaltar pela tranquilidade, a manter-me aceso e a estar coerentemente ao teu lado. Sinto a carne dos teus beijos, as sementes no teu rosto, os anos no teu olhar. Já não guardo a memória do sítio onde nasci. Os objetos começam a desintegrar-se lentamente. Esqueci até as três formas possíveis de voar. Já nada ilumina a noite. A cidade escurece. Assumimos a dor. O vento passa depressa. A casa está sólida, mas as portas emudeceram. Alguém reza o terço enquanto no céu passam aviões a jato. Vai ser preciso aprender de novo a distinguir o bem do mal, a desejar os desejos, a bordar a felicidade em panos de linho cru, a conhecer as estrelas pela luz e aprender a ter tempo para beijar o corpo de quem amamos. Deixei de ter medo dos caminhos. Desfolho os malmequeres como em criança. Sinto o teu rosto e a tua vontade. O tempo está repleto de metamorfoses. Subo as escadas à procura da luz. Entro pela porta por onde devia sair. Caem-me as memórias aos pés e não as consigo apanhar.


publicado por João Madureira às 07:15
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