Quinta-feira, 15 de Março de 2018

Poema Infinito (396): O medo

 

 

A minha avó deu-me uma chave para abrir uma porta que não existe e depois declarou que queria morrer junto ao rio, no sítio onde cresce muita erva e algumas flores silvestres, no ponto central da curva onde o salgueiro mais baixo dá sombra. Depois gemeu baixinho como se estivesse a ficar incoerente. Já antes tinha falado em febre, em jejum, em gula e em cavalos pretos que fugiam a galope enquanto os homens se encostavam às paredes nuas da igreja como se estivessem sozinhos no escuro. Nem sequer conseguiam chorar, disse como quem treme de espanto. Disse-me também para nunca fazer versos sobre eventualidades. A criação e a morte desaparecem dentro dos poemas. O Sol parece estático e a sua luz não aquece nem alumia. Oiço agora o rumor das máquinas, a afinidade do gozo e do sofrimento, os sentimentos mais indiferentes, a prevalência dos equívocos, o segredo das casas, a passagem da música, o rumor do mar junto à linha de espuma. Chove na noite, na fadiga e na esperança. Não vale a pena perder tempo a mentir, a dramatizar, a invocar o aborrecimento. A infância já está sepultada e as memórias oscilam entre os espelhos e a dissipação. Penetro surdamente no reino das palavras, no desespero dos dicionários, na superfície intacta dos poemas. Sei do poder do silêncio e da forma definitiva do espaço. As respostas são neutras. A minha avó pergunta: trouxeste a chave?  Gosto da sua voz situada entre a melodia e o conceito. As minhas palavras refugiam-se na noite, impregnadas de sono. Por vezes transformam-se em desprezo, ou escondem-se entre as flores e a náusea. Por vezes os meus olhos ficam parados e sujos como o relógio da torre da minha aldeia. O tempo completa sempre a sua missão. Sem ênfase, até as coisas mais precisas e belas ficam tristes. Cai o tédio sobre a cidade. Os poemas são agora como alucinações, as palavras como cifras e os sentimentos como códigos de barras. Todos os dias os homens voltam para casa menos livres, soletrando o mundo, envoltos em melancolia, em desespero. Ficam ferozes como os pedreiros do mal. Querem pôr fogo em tudo, inclusive neles próprios. Pensam que o ódio os pode salvar. Essa é a sua esperança mínima. Uma flor nasceu na rua, no sítio onde param os autocarros, iludindo os polícias e o asfalto, paralisando os homens de negócios. Ninguém percebe a sua cor nem o facto de as suas pétalas não se abrirem. As pessoas passam ao seu lado de forma insegura. Nas montanhas ao redor avolumam-se nuvens maciças e lentas. Nas aldeias vizinhas, as galinhas ficam em pânico. Todos sentem que o seu destino está incompleto. O medo espalha-se como uma verdade inconveniente. Nascemos com o medo. Fomos educados com o medo. Cheirámos as flores a medo. Amámos a medo. Vestimos o medo. Até nos refugiámos no amor, a medo. Vestiram-nos as asas da prudência e disseram-nos que éramos anjos, mas que devíamos, acima de tudo, ter medo de Deus, da sua ira, do seu olhar omnipresente. Agora temos medo da poluição, do abandono, da solidão. Entoamos canções medrosas como se fossem láudano para a alma. O medo agora é calma e estátuas sábias e estrelas cadentes e olhos acesos na noite. Todos dançamos a valsa do medo. Todos nascemos a medo, no escuro. Todos morremos da mesma forma. A claridade é uma espécie de susto na noite.


publicado por João Madureira às 07:15
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