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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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22
Mar18

Poema Infinito (397): Recolhimento

João Madureira

 

Alguém grita dentro de mim, como se estivesse longe da terra e do céu. Quero chegar primeiro ao teu sonho, ao caminho que é lei, de arma na mão, como quem leva o pão e o vinho. O lume aquece o cantar, as cigarras alumiam os lírios. Uma onda de paz percorre as horas. As noites são agora mais vastas e desertas, nelas nascem flores deslumbradas. Os rouxinóis banham-se no orvalho. Antigamente nasciam peregrinos de contornos perfeitos que acenavam com as mãos em riste. Os seus sorrisos destruíam o silêncio, muitos doiravam a agonia e concentravam em si o dom natural dos mistérios. Cegavam a dor e cobriam o tempo com golpes de amor. Os sonhos germinavam na bruma e chegavam à terra a palpitar debilmente. Erguiam-se então as quimeras, construíam-se casas como formas de expressão. A luz é agora nossa, carregada de matéria astral. As montanhas continuam enormes e paradas, apenas os penedos estão mais dobrados. Os pastores continuam serenos, caminham afastando as horas, guardando os seus rebanhos. Parecem santos antigos pregando poemas líricos onde se fala de perdão. A traição continua a ser um gume.  Os nossos passos pisam a dor. A vida está carregada de uma ternura trágica. Os falsos profetas continuam a gastar o tempo. Outro é agora o destino das coisas e dos seres. Os anjos já não vencem as palavras, limitam-se a aquecer-se dentro das suas gastas armaduras de guerra. O sentido de tudo é mudo como o fundo das noites. A luz vai-se despindo do seu véu. Os olhos cansados dos velhos acendem a dor dos campos bravios, as suas bocas estão esgotadas de chamar. As suas mãos apontam para os caminhos que já não passam por ali. O vento da vida faz estremecer os cedros. Já ninguém pede horizontes. Quando cai a tarde, o cheiro das cores fica mais intenso. Passaram muitos anos e muitas dores. Outras se lhe seguirão. Os brinquedos já deixaram de ser desejo há que tempos. As quimeras tornaram-se mentirosas. As promessas deixaram de chamar por nós. Só a neve nos procura de vez em quando e nós sorrimos deixando-nos doirar pela solidão e pelas labaredas da fogueira. Abrem-se os sonhos como ninhos abandonados. Desce de novo o sol. Os versos espreitam a medo pela janela vestidos de melancolia. O vento lamenta o silêncio do sino da aldeia. Os dias são atravessados por segredos frios. Alguém chora no caminho bebendo a amargura das rosas. O granito negro vigia a praça. A fraga velha ainda se lembra da dor dos almocreves. Desenha-se na sombra o pressentimento da solidão. O lençol de linho já se esqueceu do pudor com que embrulhava os amantes. Certas são agora as horas na tua mão. As recordações perderam a certeza como os lírios perdem a cor. Existe uma nova firmeza nas raízes das árvores da quinta. Os frutos são mais cósmicos, os sonhos são mais densos. Caem a prumo do céu anjos azuis, aligeirados pelo tormento. As aves acompanham  a dor. Alguém canta versos agudos. Nascem agora as sementes que o vento espalhou. A amargura reflete-se na água do rio. Águias reais voam nas alturas. Os trigais acenam ao longe. Os velhos comem a sua própria solidão e destroem as horas uma a uma. Eu recolho as palavras que nascem nos caminhos velhos como flores esquecidas. Perdeu-se tudo, até a alegria da fecundação.

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