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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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05
Abr18

Poema Infinito (399): A coloração das ruínas

João Madureira

 

 

 

Possui o teu silêncio uma geometria fixa em forma de hexágono, uma espécie de música esférica que define os diversos pontos cardeais que não deixam de rodar e de se fundir. Esse silêncio fecha os nossos lábios. No meio da água quente do vulcão, Deus enreda os seus pés como se fossem cobras. Os seus sentimentos transformaram-se em cinza. O seu destino é agora um enorme vazio. A luz entra em erupção. Abro a janela aos desejos do sol. Os seus olhos metamorfosearam-se em anémonas. Sinto a falta do teu amor. A exaustão do tempo é uma nova forma de loucura. Os dedos ferem as raízes da alma. Os animais insones afastam-se do crepúsculo. O musgo começa a cobrir a floresta. Tudo passa tão rapidamente. Tudo faz parte de uma outra metafísica. Buscamos novos conceitos e novas ideias. Uma vegetação abstrata atravessa a floresta. Os viajantes já não sentem as pedras, nem as folhas, nem a erva que cresce pelos caminhos. Os novos viajantes têm uma imaginação apressada, cheia de aforismos, de reflexões e de matérias estéreis. A luz antiga é agora mais cética. As ruas estão vazias, apenas alguns bêbados, à porta do café, discutem para se manterem acordados. Depois calam-se à espera que as horas avancem. As sombras tomam conta da aldeia. O vento agita os arbustos. A solidão vagueia pelas ruas. Os frades, nas celas, sonham com a eternidade. Outros homens ouvem o vento infinito enquanto as suas mulheres abrem os vestidos como se fossem janelas. O sexo pode ser entediante. Ninguém abre a porta. Os dedos das mulheres hesitam em acender a luz. A obscuridade indica-lhes o caminho. Elas sonham então com danças lentas, queixam-se da solidão. Algumas das palavras soltas entreabrem a porta e fogem para a rua. Tudo se torna indeciso. O desejo provoca dúvidas. As ninfas afirmam-se agnósticas e encharcam-se de limpeza. Corre a água pelo meio das memórias, uma água fria que transforma os cisnes em mulheres expostas. As palavras caem agora como estrelas candentes. Os poemas parecem linhas exatas. Vejo-te através do espelho da memória. O tempo já não nos acrescenta nada. Os nossos olhos mantêm a mesma inquietação. No entanto, os nossos rostos são agora mais abstratos. As portas da manhã começam a abrir-se. O seu desenho perde-se na tradução. Lembro-me bem da tua luminosidade, da luz vagarosa do teu amor, da explosão tátil do teu sexo. Há agora demasiado brilho nos frutos, como se fossem de plástico. Reconheço as estrelas pelos sinais. Lembro-me devagar dos feixes de luz, do mar azul, do reflexo denso da luz inquieta, do big bang, do relento do vale, da cara das estrelas, da vontade incoerente das fotografias, dos vértices do tempo, dos longos círculos do desejo, dos movimentos domésticos da paixão, dos processos de mutação das mulheres, das conversas longas, dos cabelos brancos da tarde, do relento, da exaustão. O tempo é agora a nossa segunda pele. É normal falarmos com os pássaros, cortarmos a escuridão em pedaços, abrirmos brechas no futuro, lembrarmo-nos do cintilar de Paris. Fazes-me recordar a alegria. É de novo o tempo das amendoeiras em flor. As revelações são agora mais lentas. Tentamos vencer o tempo da dor. Muita luz ainda há de vir antes de nos irmos embora. Os exercícios de memória são agora mais longos. Desejo que os detalhes nos sejam concedidos. Um pontinho mínimo nesta vasta arena cósmica continua a brilhar. Da janela do quarto continuo a observar os desenhos coloridos das ruínas de Pompeia.

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