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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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12
Abr18

Poema Infinito (400): Indeterminações

João Madureira

 

 

Corre pavorosa a água no rio da aldeia. A água mistura a gente e as coisas. Ouve-se o tempo a vir. Escuta-se o tempo a ir. A tarde fica indeterminada. Os velhos continuam a jogar as cartas na mesa da taberna. As crianças brincam com os comboios que encontraram no sótão. E choram com o choro das mães quando bordavam a culpa dos soldados nos panos de linho, quando elas tinham medo das lanças e da culpa e da vergonha e do remorso e das sombras disformes e dos passos que tinham então o tamanho do infinito. Continuamos a fechar os olhos na tentativa vã de encontrar Deus. Alguém arranca os brinquedos das mãos das crianças. Os seus olhos assustados parecem a piedade que dantes sufocava tudo. Custou-nos aprender a ter emoções, a ver as pessoas partirem, a pensar o universo como se fosse uma cela. Uns rezam para partir. Outros fazem-no para ficar. A dúvida e o desespero são idênticos. Todos temos um jardim na infância. Todos o sentimos de forma prolongada como se nos seus bancos se sentasse a tristeza. Escrevo agora poemas em linha reta, cheios de paciência, calados. Todos sofremos a angústia das pequenas coisas. Agora escutamos a voz pecaminosa dos semideuses da vacuidade, o seu perfil erróneo, os seus titubeios, a sua mesquinhez. Prometeram-nos o sossego da noite e o ladrar esparso dos cães. Apenas sentimos ao de leve a pressão da felicidade. O seu murmúrio é monótono. Morde-nos a inquietação. Lembro a fotografia das mãos paradas da minha avó, a crença das mães, a injustiça da maldade, o sol deitado nos campos. Por vezes atingi-nos a vontade de nunca chegar a casa, de nos desviarmos do caminho. O desejo torna-se indefinido, provavelmente lúcido, mas indefinido. Por vezes, o tempo fica consequente. Há ainda a imaginação do amor e do bem. Tudo em intervalos regulares. Até a justificação necessita de ser modificada. Há explicações que não explicam nada. Nem a paciência do universo, nem a presença esquiva da inocência, nem a vida dos nomes, nem a microbiologia das desilusões, nem a minúcia das futilidades. E muito menos a conclusão teórica dos apocalipses. Sobe-nos a febre com os sentimentos. Existe agora uma nova noção das coisas. Uma nova maneira de sentir. Agora o orvalho é mais plácido, a nudez já não possui silêncio e a realidade transmite-se por espasmos. Apesar disso, as máquinas são mais doces e o seu barulho mais imóvel. Agora pressentem-se melhor os momentos e os pensamentos são mais mansos. Pressagiam-se melhor as estruturas e a lucidez tem a forma de um clarão. As indecisões são mais nítidas, as palavras mais incertas, os vícios mais heroicos e os sinais mais cinzentos. No entanto, as armas continuam a deslizar para o aniquilamento. Na hora do crepúsculo, as almas adquirem a estrutura superior do silêncio. Os nossos passos produzem ecos estranhos. As janelas estão mais tristes e a luz parece mais adormecida. Atá as correntes de ar levantam o pó produzido pelos pensamentos. As posições dos corpos são definidoras do seu equilíbrio. No entanto perderam a sua intuição. As árvores continuam a enformar as alamedas, a dar-lhes sombra, a acentuar-lhes a extensão. Também as portas da igreja continuam a ser incoerentes. A sequência dos passos leva-nos agora ao verdadeiro caminho. A borboleta não consegue fugir ao sentido figurado da luz. Junto ao muro, o pedreiro continua a trabalhar, pisando as folhas secas.

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