Quinta-feira, 26 de Abril de 2018

Poema Infinito (402): A louca memória das fotografias

 

 

A escuridão tornou-se claridade. O lume encontra-se dentro dos limites da sua iridescência. Escrevo o mundo a partir das trevas. Vamos ter de escolher a melhor maneira de ardermos. As sílabas mais sujas foram já incineradas. A tristeza das árvores é agora mais evidente. Quando me levantei, as janelas já estavam abertas e a luz começava a espalhar-se por toda a casa, cobrindo os objetos e o mobiliário, devolvendo-lhes as formas, os pesos e respetivas volumetrias. Acordou tudo aquilo que era quotidiano. Até as petúnias murchas vibraram nas jarras. A sala agitou-se. A cidade entrou de repente pela porta dentro. Permaneço na penumbra do sono. Ainda não saí de casa e já estou irremediavelmente longe de ti. Até os suspiros estão deslocados. O mundo parece despedaçar-se. Os delírios estão repletos de penumbras e incertezas. Agarro-me então à memória que é outra forma de asfixia. A noite costuma colar-se aos gestos. Pesa-me agora mais a luz do dia. O pior de tudo é a falta de tempo. As ilhas desprenderam-se definitivamente do mar. Desço as mãos à procura do teu sexo. Os nossos corpos continuam a ser coerentes. A sua luz ainda é reconhecível. Tenho sede de ti, desse tipo de sede que nunca encontra a sua água. A dúvida é outra forma de esperança. A vida encheu-nos de afazeres mesquinhos. A desilusão assemelha-se ao infindável tricot da minha mãe. O vento arrastará a primavera para outro sítio, longe deste silêncio. Talvez a casa passe a amanhecer de outra maneira. Impregnaram-me de culpa. Sinto a velocidade do tempo. Os barcos afastam-se silenciosos como chegaram. Os sonhos são mais indecisos. Este mar não se consegue localizar nos mapas. Começo a ter visões, a aperceber-me das pequenas formas flutuantes, da geometria abaulada dos dedos, da incandescência do desejo, da inquietação da indiferença, das cicatrizes provocadas pelas lágrimas. Os lábios dos deuses murmuram presságios. Os sonhos são fotografias que deixaram de nos olhar. Habitam-me novas sombras, um tempo mais remoto, uma nova linguagem desconhecida. Turva-se-me a memória de tudo. Não quero corrigir o passado. Tenho a tua voz exatamente gravada na minha memória e não a consigo perceber. Já não reconheço a maioria das paisagens, apenas os intervalos da erva fresca. É quotidiana a morte de Deus. É infinita. As vozes deslocam-se pelas paredes, os corpos tremem e cintilam. A cidade silencia as suas ruínas. Por vezes conseguimos alcançar alguns sorrisos. Temos a idade do momento em que nos conhecemos. Dormimos dentro das fotografias antigas, para sentir a sua solidão, os seus murmúrios, para desvendar a cumplicidade dos olhares cruzados, a recordação do calor e do desejo que crescia dentro dos corpos. Houve tempos em que passeámos pela cidade como se fossemos imagens azuis. Lembro-me que as tuas mãos flutuavam diante de mim como se fosses um anjo do prazer e da demora. O pavor da saudade é igual à noite, falta-lhe a mesma coragem. Temos ainda a memória dos dias difíceis, da violência das noites, dos sonhos não sonhados, das vozes traduzidas em escrita. A solidão da adolescência continua a ser a foz aveludada de um rio sagrado. O tempo amareleceu o rosto e as mãos das fotografias. A cor sépia ficou doce como a tua definição. É inútil falarmos das razões da última viagem. A memória enlouquece até as imagens mais aciduladas.


publicado por João Madureira às 07:15
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