Quinta-feira, 3 de Maio de 2018

Poema Infinito (403): A brancura invisível do ar

 

 

Saí para a cidade e ela desvaneceu-se. Desaparecer continua a ser surpreendentemente fácil. As pessoas fazem tudo para abandonar a própria identidade. Chegará o tempo de as palavras não conseguirem sair de dentro de nós. Dizem que os deuses já começaram a escurecer. Agora é inverno. As noites são mais longas. De manhã, a luz penetra em nós filtrada pela neve. Já passou o tempo dos loucos gloriosos. O braço mecânico do tempo mexe-se na direção correta. O medo torna-se mais forte do que a necessidade. O chão parece assustado. Os corpos oscilam como os sinos. As recordações são cada vez mais duvidosas. O vento cai de súbito sobre nós. Andamos em círculos. As máquinas começam a soluçar. Nós não reagimos. Procuramos as entranhas luminosas do tempo. Só os corpos sentem dor. A escuridão faz-nos sentir ansiosos. As árvores agitam-se obstinadamente. As suas folhas parecem colonizadas pelo ar glacial. O teu rosto continua fascinante e triste. Pareces uma pessoa imaginada envolta num grande sorriso. Os desaparecidos ganham peso enquanto nós vamos ficando mais vazios. O inverno parece incapaz de nos devorar. Lembro-me de flutuarmos num ar branco de encontro à luz frágil dos edifícios. As palavras continuam a chegar, acumulando-se ao nosso redor, como neve. Algumas são tão leves que se desvanecem rapidamente. São como nós: pó de estrelas. Começo a perder a tua linguagem e a recordar as palavras das orações. Uma coisa é certa: os invernos são mais fiéis. A paisagem adquiriu a precisão dilacerante de um quadro de Seurat. O pai-nosso afetou-a do mesmo modo físico que o vento norte. Só perto de Deus se sente a sublimação das alucinações. Houve tempo em que fomos agressivos como a luz quebrada pelo mar. Éramos jovens improváveis. Recorríamos aos gestos em vez de usarmos palavras. As forças convergiam antes de adormecermos embalados pelo ritmo obsoleto da Internacional. A minha paixão integral vai toda para Bach. As frases musicais assumem a aparência de palavras. E as palavras aparecem-nos como formas geométricas. Seurat transforma-se em fragmentos brilhantes. As fantasias de agora estão todas encaixadas no real. Por vezes, as palavras desaparecem dentro do seu próprio sentido. Formam-se então  buracos negros no pensamento. As substâncias cinzentas envolvem o núcleo da substância branca. Existe dentro da nossa cabeça uma espécie de assimetria, um desequilíbrio entre as palavras e as imagens. As mãos acenam na direção das paredes vazias para chamar os quadros de Van Gogh. Do seu interior sai um exército de pinceladas azuis e amarelas. Aprendi, sem querer, a ser demasiado analítico, a não compreender o lado efémero das coisas. Ensinaram-me então a monitorizar a delicadeza, a traduzir a música em representações matematicamente complexas, a pormenorizar os ritmos e as paisagens urbanas, a processar o momento sagrado das fotografias. Foi então quando o nosso mundo interior mudou. O nosso mundo interior faz agora parte do universo. O tempo é como um rio que se move de forma efémera e aleatória. Nada permanece sem alteração. Hiroji ensinou-me que o número possível de estados mentais é superior ao número de partículas elementares no universo. Afinal, o que é a loucura?


publicado por João Madureira às 07:15
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