Quinta-feira, 10 de Maio de 2018

Poema Infinito (404): Criação de espaços

 

 

 

Construímos o dia como uma torre de pedra onde podemos meditar ao crepúsculo. A sua plenitude é tranquila. Perfeitos são os campos e as ervas altas e as flores e os arbustos e o riacho que corre por dentro da penumbra verde destacando o teto arqueado da folhagem. Podemos agora dizer que o olhar do construtor encontrou finalmente a sua própria extensão. O tempo demonstra o seu mutismo, guarda o seu próprio espaço, trabalha a sua esplendorosa tranquilidade. A meditação é outra forma de eloquência porque contém em si o excesso de energia e a densidade calma da matéria. Elaboramos interrogações porque nos disseram que a vida está intacta. A realidade exterior passou a manifestar-se de forma circular. O segredo reside na relação simples entre o corpo e o espaço, entre a paisagem e o desassombro, entre o ser e o olhar. A realidade não está no interior do sujeito, apesar da intimidade permanecer fechada dentro da obscuridade dos labirintos. O vasto silêncio da tua boca revela-se através do fogo silente do teu olhar. Os lábios parecem um novo instrumento de escrita, descrevendo o desespero da espera, a libertação dos sentidos, a voracidade audaz das vaginas, a consagração do silêncio, a esperança redonda dos teus seios, a assimetria angulosa das cores, o humor das árvores, a subversiva ternura da juventude, o incêndio dos corpos, o horizonte interno da terra. Alguém abre a porta do tempo com tenazes de fogo. Alguém grita dentro da sua nudez completa. A vertigem de escrever é branca. As palavras ardem dentro da boca. Deus escreveu de novo com nitidez milimétrica a origem de tudo, a criação completa. Espanta-me a minúcia da tua boca, os campos sombrios, a forma incendiada do teu corpo. Revela-se a luz na forma entusiasmada das folhas, na lentidão perpendicular dos corpos, nos olhos dos anjos, na consciência explosiva das palavras, na infinita fragilidade da vida, na consciência do desejo, no acumular das sombras, na respiração dos montes, na designação esplendorosa do vazio, na imperfeição dicotómica do amor. Olho para os campos com a lentidão de quem os quer esquecer. Deixo-me ir devagar, percorrendo o caminho incendiado da infância, observando a impercetibilidade dos insetos, a respiração brilhante dos lagos, o embranquecimento das profecias, a virgindade intemporal das árvores, a velocidade iluminada da rotação da Terra, a raiva ordenada da perspicácia, as margens obsessivas dos rios, a inanição da poesia, as esquinas invisíveis da pobreza dos bairros, as referências absolutas do irreal. As sombras das montanhas são agora mais altas. O teu corpo é agora mais lúcido. As frases são agora mais frágeis. Os ecos são mais distantes e a água mais árida. Conseguimos ouvir o ar atravessar transversalmente as palavras. As distâncias adquiriram novo sentido. O tempo parece mais íntimo. A profundidade, essa, continua infinita, como os olhares que se abrem e fecham por dentro. A proximidade dos corpos ficou mais longínqua. Estamos no centro do tempo, no centro do silêncio. O espaço das palavras é agora mais vazio. Respiramos melhor quando nos sentamos à janela e ouvimos a música das varandas, o ruído amplo da verdura, a simplicidade vagarosa do desejo. A tua serenidade cria um novo espaço dentro de mim.


publicado por João Madureira às 07:15
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